
Nesta edição que dedicamos à análise dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais, falámos com representantes de partidos políticos portugueses aqui em Toronto. A abstenção volta a levantar questões profundas sobre a relação da diáspora portuguesa com a vida política nacional, bem como o crescente apoio da nossa comunidade a um partido de extrema-direita. Para nos dar a sua perspetiva da situação política atual da comunidade portuguesa residente na GTA e não só, conversámos com Carlos Miranda, dirigente do Partido Socialista em Toronto, que analisou os obstáculos ao voto no estrangeiro, o sentimento de protesto e descontentamento existente entre os emigrantes, o papel das redes sociais na difusão de narrativas simplistas e enganadoras, e a responsabilidade dos partidos democráticos perante esta nova realidade política. Uma reflexão crítica sobre cidadania, participação e futuro democrático, dentro e fora de Portugal.
Milénio Stadium: Há 48.500 eleitores inscritos aqui no Consulado de Toronto recenseados aqui e votaram 1.035. Qual é a razão, na sua opinião, para esta abstenção, sendo que ainda assim este número de votantes?

Carlos Miranda: É sempre difícil responder a essa questão, até porque esta abstenção não retrata apenas o Canadá, mas também aquilo que acontece um pouco por todo o mundo com as comunidades portuguesas. Uma das razões é, de facto, a dificuldade que as pessoas têm em exercer o seu direito de voto à distância. O voto está concentrado no posto consular, o que torna a vida difícil para quem quer votar. Há também algum desinteresse por parte da população. É um misto das duas coisas. Na parte que compete ao Estado e aos partidos, deveria ser criada uma forma de votar mais acessível, usando, por exemplo, associações e locais onde a comunidade se reúne. É lamentável que apenas cerca de 2% tenham votado, porque os emigrantes têm poder para fazer a diferença e não usam essa possibilidade.
MB: Desses 2% que votaram mais de 69% votaram no candidato do partido Chega, André Ventura. O que é que está a acontecer à comunidade e não apenas aqui em Toronto, mas as comunidades portuguesas que estão espalhadas pelo mundo para apostarem num partido radical de direita.
CM: Há aqui dois fatores ou mais que dois. Tenho tentado perceber também eu próprio, o que tem acontecido, o que aconteceu nas últimas eleições e o que poderá vir a acontecer num futuro breve. E a conclusão, a que chego é que, de facto, há aqui um desapego relativamente à realidade do nosso país atual. Nós temos que perceber que se olharmos com muita atenção para aquilo que foram as votações espalhadas por todo o mundo e a idade média das comunidades que residem nesses mesmos lugares, podemos perceber algo que de facto traduz aquilo que eu acabei de dizer – as pessoas saíram há já uns bons anos de Portugal, ou os pais ou os avós por dificuldades provocadas pela ditadura emigraram e pouco ou nada acompanham o nosso país. Portanto, na minha opinião, essa é uma das razões. Evidentemente que a segunda razão é mais forte. É, de facto, o partido em questão. André Ventura é quem concorre para Presidente da República, mas leva com ele todo um partido e, de certa maneira, uma lengalenga, (desculpe-me a expressão), que atrai de facto as pessoas. É o populismo. Notícias enganosas. E usa muito bem, muito bem mesmo, as redes sociais, na minha opinião. Muitas vezes é difícil de expressar o que pensamos para que não se ofenda quem quer que seja, mas de facto há aqui estes dois pontos que, na minha opinião, traduzem naquilo que foi este resultado eleitoral. Muita gente diz que temos que acabar com o sistema, temos que mudar. E eu tenho conversado com algumas pessoas a quem pergunto, mas mudar o quê? E as pessoas não sabem dizer, querem mudar, mas não me sabem dizer o quê. Ora vamos lá ver, ou nós percebemos aquilo que fazemos ou então andamos aqui porque vamos na onda, não é? Vamos todos na onda e pronto. E eu acho que é o que está a acontecer, porque este populismo tem esta narrativa de termos que acabar com o sistema.
MS: Considera que, de certo modo, é um voto de protesto ou um voto de revolta contra a situação política no país?
CM: É indiscutivelmente um voto de protesto, de revolta. Porque eu não consigo ver todos estes portugueses a serem militantes ou simpatizantes do partido Chega. Não consigo ver isso. Além disso, em 48.000 pessoas votaram 1000. Não podemos dizer que isto é a voz dos emigrantes no Canadá, não é? Nós estamos a falar em 2%. Mas é verdade que. de facto, há aqui uma revolta. Nem tudo corre bem para os emigrantes, muitas vezes somos esquecidos por este ou aquele motivo. Há também um voto de protesto por tudo aquilo que tem acontecido em termos de algumas situações de escândalos, de corrupção, etc. Tudo isso pode ter contribuído para este desfecho.
MS: Mas os partidos tradicionais da política portuguesa têm também responsabilidade nesta ascensão de um partido de extrema-direita em Portugal?
CM: Evidentemente que sim. Nós não nos podemos acomodar e não nos podemos deixar de nos adaptar à realidade do dia a dia das pessoas, daquilo que vai evoluindo pelos países. Quer dizer, não podemos parar no tempo.
MS: Por outro lado, há também um nível de desconhecimento um bocado acentuado do sistema político português e nomeadamente dos poderes do Presidente da República, não é?
CM: Exatamente! Muitas das pessoas foram votar a pensar que votavam no partido. Chega e que depois o André Ventura, sendo eleito, poderia mexer muito nas questões de que ele fala durante a campanha. O que não é verdade, mas as pessoas não sabem disso. Eu tive a oportunidade de observar o nível de conhecimento que as pessoas têm até relativamente às regras da votação. Quando fui votar ao consulado estava uma fila enorme e eu estive ali algum tempo que deu para observar algumas situações e, de facto, as pessoas falavam em assuntos que não dizem respeito ao Presidente da República. Esta campanha de André Ventura tem sido feita com aquilo que as pessoas querem ouvir, mas que nada tem a ver com esta eleição, só o governo é que tem poder para melhorar ou alterar o que poderá estar mal. Não o Presidente da República. Já agora eu também presenciei que algumas pessoas chegavam à mesa de voto e não puderam votar porque não estavam inscritas cá e as pessoas estavam extremamente revoltadas porque queriam votar, que não deixavam porque até o tal “sistema” estava instalado no consulado de Toronto. Isto é quase inacreditável, mas aconteceu por mais de uma vez.
MS: Independentemente do resultado do dia 8 de fevereiro, com o resultado de André Ventura, que leitura se pode fazer do futuro de Portugal perante este crescimento da extrema-direita em Portugal?
CM: Portugal vai seguir o mesmo caminho que alguns países já percorreram. É uma realidade. E também atenção, há que respeitar a vontade do povo, claro, há que respeitar aqueles que votam no partido Chega! Seja por que motivo for.
Mas os partidos democráticos têm de refletir seriamente, porque existe o risco de retrocesso em conquistas alcançadas desde 1974. O próximo governo terá um trabalho muito difícil pela frente.
Agora estamos a falar no André Ventura e no António José Seguro e estamos a falar em dois polos completamente diferentes e, portanto, eu penso que a maioria dos portugueses não vai ter dúvidas em qual é que vai votar. Mas depois, a partir daí, o governo vai ter um trabalho muito duro para lidar com o partido Chega que vai querer poder a todo o custo.
MB/MS







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