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Abrir o coração ao desconhecido: reflexões sobre a imigração num mundo em mudança

Conversa com o psicoterapeuta Roberto do Nascimento

Créditos: DR.

Na intersecção entre dois mundos surge a voz ponderada e experiente de Roberto do Nascimento, psicoterapeuta conceituado nas comunidades lusófonas do Canadá. Em entrevista exclusiva, o especialista aborda os desafios e oportunidades da imigração, a importância da integração e o papel das emoções num processo tantas vezes marcado por rupturas, adaptações e reconstruções de identidade. 

Para Roberto do Nascimento, o processo de adaptação de um imigrante a um novo país assemelha-se a uma visita à casa de um desconhecido. “Adaptamo-nos à forma como somos recebidos, estando atentos aos comportamentos, às rotinas e à forma como respondem às situações do quotidiano”, afirma. Segundo o terapeuta, a hospitalidade deve ser retribuída com respeito pelas normas locais, sublinhando que é essencial estudar e compreender o que é apreciado ou mal visto no novo contexto. 

Com a sensibilidade que lhe é característica, sublinha que este processo exige introspeção: “Se o imigrante tem raízes muito fortes e uma certa resistência em mudá-las, é necessário refletir profundamente se a vida e os costumes do novo país são, de facto, as melhores opções para o momento.”

Roberto, na conversa com Rómulo, destaca ainda duas exigências básicas e sensatas para uma convivência harmoniosa: “Aprender as duas línguas oficiais é uma forma de demonstrar interesse, respeito e a intenção de contribuir.” Esta abertura linguística, afirma, é uma ponte para o entendimento, a inclusão e a representatividade.

Ao falar do Canadá, país onde reside e trabalha, Roberto do Nascimento não poupa elogios: “É um país pacífico, que valoriza a convivência harmoniosa com os demais povos.” O psicoterapeuta aponta os festivais multiculturais como exemplos concretos dessa convivência saudável, onde se celebram as raízes culturais e se fomenta a curiosidade sobre o outro.

Este espírito de abertura contribui, segundo ele, para uma atmosfera de respeito mútuo que vai além do discurso oficial. “Mesmo que surjam divergências, prevalece uma convivência pacífica e inclusiva”, refere, com um olhar que mistura análise profissional e experiência pessoal.

Questionado sobre fenómenos como o racismo e a xenofobia, o psicoterapeuta mostra-se preocupado, mas também esperançoso. “Estes fenómenos têm origens complexas: medo, ignorância, tensões históricas e socioeconómicas. As suas consequências são sempre destrutivas.”

Para o psicoterapeuta, a empatia é a chave para um novo paradigma de convivência: “Se os indivíduos olhassem mais atentamente para o outro, sem competição, e investissem tempo a ajudar o próximo, viveríamos numa sociedade mais justa.” Roberto advoga por uma cultura de partilha e serviço comunitário como antídoto para os males da exclusão.

“Hoje podemos estar numa situação privilegiada, mas não há garantias de que assim permanecerá. Devemos baixar as nossas defesas e ver no nosso semelhante uma oportunidade de crescimento e de amor.”

A última reflexão da entrevista incide sobre o impacto da imigração nos países de acolhimento. “Pode ser tanto uma oportunidade como um desafio”, afirma, explicando que tudo depende da forma como o fenómeno é gerido.

Na visão de Roberto, a imigração é vital em sectores como a saúde, a construção, a agricultura e a pesca — especialmente em países com populações envelhecidas. Mas alerta: “Quando o sistema não está preparado, surgem dificuldades nos serviços públicos e na integração.”

A solução? Políticas migratórias robustas, programas de integração eficazes e uma vigilância constante sobre o impacto social da imigração. “Países que promovem a participação cultural e económica dos imigrantes colhem mais benefícios”, resume, com a certeza de quem observa o fenómeno por dentro, todos os dias.

Recorde-se ainda que as palavras de Roberto do Nascimento, segundo o próprio, não pretendem ser definitivas, mas sim um convite à reflexão. Entre a empatia e a responsabilidade, o psicoterapeuta propõe uma visão humana, respeitosa e crítica sobre a migração, num mundo cada vez mais interdependente. “Talvez o maior acto de coragem não seja partir para outro país, mas abrir o coração ao desconhecido – em nós e no outro.”

Rómulo Medeiros Ávila/MS

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