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A liberdade de ser

 

 

opcao 2 - milenio stadiumA sensação de não pertencimento ou inadequação muitas vezes é constante na vida dessas pessoas. Um grupo, cada vez mais numeroso, como apontam recentes estatísticas, que não se encaixa ou não consegue se enquadrar nas definições de gênero – masculino ou feminino – nas quais a sociedade tradicionalmente se construiu. Vem daí a denominação não-binário que atualmente vem ganhando popularidade entre as pessoas e corporações. Dentro dessa complexa temática se encaixam também os transgêneros, aqueles cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo atribuído no nascimento.

E aqui no Canadá, os números recentes do Censos 2021 divulgados pela Statistics Canada apontam que uma a cada 300 pessoas com mais de 15 anos, se identificam como transgêneros ou não-binários. Vale destacar que essa foi a primeira vez que esse levantamento de dados da população canadiana incluiu questões de gênero. Os números mostram que os autodeclarados transgêneros e não-binários são três a sete vezes mais comuns na geração Z e millennials do que nas gerações mais velhas, como as que pertencem à X e baby boomers, conforme a agência canadiana.

Os novos tempos, mais tolerantes e inclusivos, talvez sejam a resposta para essas estatísticas que num primeiro momento saltaram aos olhos e geraram manchetes em todo o país, afinal é uma porcentagem expressiva da população que sinaliza novos tempos. Diante dessa realidade é preciso refletir sobre como a sociedade se comporta atualmente, e como terá que se adaptar, em diferentes setores, para acolher e integrar um grupo de pessoas que simplesmente não se identifica com os gêneros pré-estabelecidos.

A educação e o debate sobre o tema identidade de gênero começam indiscutivelmente na escola. Esse é um dos principais lugares de formação das crianças e muitas vezes os educadores podem reforçar um currículo baseado no gênero sem nem perceberem. Essa aliás é uma tendência da sociedade como um todo. Vivemos sob uma construção social que por vezes determina comportamentos de acordo com o sexo da pessoa. Desde pequenos os meninos são incentivados a brincarem de carrinhos e super-heróis enquanto para as meninas sobram as bonecas e as panelinhas. Ao longo dos anos isso parece estar mudando e uma abordagem mais ampla e sem restrições está sendo construída. Contudo, se essa identificação for natural não parece haver nada errado, a questão que precisa ser levantada é se de fato o ambiente escolar, por exemplo, está preparado para lidar com aquelas crianças que eventualmente não se encaixem nesses modelos de comportamento pré-definidos como “normais”.

Como todos os psicólogos e especialistas na área reforçam a autoaceitação começa na infância, portanto, nesse ambiente da educação os debates sobre inclusão são fundamentais. Na vida adulta diversas empresas e corporações já começaram a se atentar a questão da identidade de gênero, e e-mails corporativos com a designação do pronome como a pessoa se sente confortável sendo chamada, feminino, masculino e também o neutro, já são utilizados. O reconhecimento da neutralidade de gênero também já ganhou espaço na documentação oficial de alguns países. Desde junho de 2019, o passaporte canadiano, o certificado de cidadania, a documentação de residente permanente e de refugiado contam com uma opção extra, a “X” para definir um gênero neutro, e não mais apenas o “F” de feminino ou “M” de masculino. Outros documentos dependem da lei vigente em cada província para serem legalizados e nelas as regras variam. Em Ontário é possível aplicar para mudar a designação de sexo na certidão de nascimento e demais documentos.

Mudanças burocráticas que parecem indicar o caminho que a sociedade terá pela frente. Mais do que aceitação e respeito, esse grupo de pessoas quer também se sentir incluído, e muitas vezes para que isso aconteça são necessárias mudanças. Um levantamento de 2018 da Statistcs Canadá sobre segurança em espaços públicos e privados apontou que pessoas transgênero e não-binárias eram muito mais propensas a pensamentos suicidas, 45% dos entrevistados, se comparado a porcentagem entre os que não estão nesses grupos e já tinham tido ideias similares: 16%. Segundo a pesquisa a discriminação e a vitimização estão entre as causas para esses resultados relacionados à saúde mental dessa parcela da população.

É evidente, no entanto, que as opiniões por vezes se dividem em relação a esse assunto, e se para algumas pessoas é primordial que mudanças sejam implementadas, inclusive na educação infantil sobre o tema, outras estão propensas a pensar que isso não passa de modismo ou reflexo de uma geração de jovens que nem sabem o que querem e que o debate precoce desse assunto pode gerar confusão na cabeça das crianças ao invés de ajudá-las.

Nesta edição nos propomos a entender mais sobre o assunto, desde os seus conceitos básicos, diretrizes legais, esclarecer dúvidas, ouvir especialistas médicos e associações ligadas à causa, afinal o diálogo é sempre o melhor, e mais frutífero, caminho para eventuais mudanças sociais e inclusivas que se façam necessárias.

Lizandra Ongaratto/MS

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