“A frustração que os condutores sentem é real. Não é uma ficção”

Rob Davis foi membro do conselho da cidade de York de 1991 a 1997. Foi o primeiro conselheiro municipal negro nos 200 anos de história da cidade de York. Foi eleito membro do Conselho Municipal de Toronto de 1997 a 2000. Foi também o primeiro vereador negro da Câmara Municipal de Toronto. Em 2023, Davis candidatou-se, sem sucesso, a Presidente da Câmara de Toronto, na by-election convocada na sequência da demissão do Presidente da Câmara John Tory.
Davis durante a sua campanha eleitoral defendeu que seria necessário resolver alguns dos problemas da cidade que considerava mais prementes. A questão da segurança nos TTC e o elevado custo da habitação foram, também para ele, temas de bandeira da sua candidatura. Relativamente às medidas agora anunciadas pela Mayor da cidade de Toronto, Rob Davis mostra-se crítico embora não alegando que esta “é uma abordagem incorreta” do problema. Rob Davis explica-nos nesta entrevista por que razão considera que há um perigo que precisa de ser tomado em consideração e que resulta de uma equação que tem dois fatores principais – o aumento de veículos na estrada e a diminuição de faixas de rodagem. Davis resume o seu pensamento sobre este assunto nesta frase: “A frustração que os condutores sentem é real. Não é uma ficção. Essa frustração, erradamente, pode traduzir-se em raiva na estrada e acidentes”. Vale lembrar que o candidato a Mayor Rob Davis, em 2023, comprometia-se a tornar Toronto mais segura, mais limpa e mais amável.
Milénio Stadium: Recentemente, a Câmara Municipal de Toronto anunciou um aumento exponencial das multas de trânsito. Na sua opinião, o que é que realmente justifica esta decisão – cuidar da segurança dos torontonianos e dos visitantes ou aumentar a quantidade de dinheiro nos cofres da cidade?
Rob Davis: Penso que esta é uma abordagem incorreta para lidar com o tráfego e o congestionamento em Toronto. A Câmara Municipal, através do processo de planeamento, aumentou a densidade habitacional, mas reduziu a exigência de garantia de estacionamento no local, por parte dos promotores. Foram oportunidades perdidas de criar estacionamento, fora da rua, que poderiam ter sido atribuídas à Toronto Parking Authority.
MS: Muitos torontonianos ou residentes da GTA queixam-se do que consideram ser uma ação policial excessiva, mais parecida com uma caça às multas. O que tem a dizer sobre este tipo de declarações?
RD: Penso que a polícia está a fazer o seu trabalho, o que é difícil na melhor das hipóteses. Mas a forma como está construída a cidade significa que um certo número de pessoas conduz porque tem de o fazer. Os idosos, as pessoas com filhos e outros utilizam os seus veículos para entrar e sair da cidade e para fazer negócios. O número limitado de opções de utilização do veículo está a criminalizar os condutores. Alguém que venha de outra cidade pode ficar confuso com a sinalização na King Street West e cometer o erro de passar um sinal verde, infringindo assim a lei e recebendo uma multa. O culpado é a Câmara Municipal, não a polícia ou os condutores.
MS: Uma das razões apontadas para o aumento das multas foi o facto de Toronto ser considerada uma cidade caótica em termos de tráfego rodoviário. Considera que estas medidas irão reduzir os problemas de trânsito da cidade?
RD: As multas só funcionam se um pequeno número de condutores estiver a infringir a lei e um grande número de condutores estiver a cumprir. Tornar impossível a navegação nas estradas fará com que a maioria dos condutores não cumpra a lei. A cidade de Toronto não tem capacidade para policiar todos os cantos da cidade.
MS: Há quem diga que o aumento das pistas para bicicletas na baixa de Toronto, com a consequente redução das pistas para automóveis, é em grande parte responsável pelos engarrafamentos e pelo aumento do nível de perigo dos acidentes que envolvem ciclistas. O que pensa sobre este assunto?
RD: A oferta e a procura são os elementos que determinam o comportamento de mercado de cada pessoa. O Conselho reduziu a oferta de espaço rodoviário e depois autorizou o aumento do número de condutores durante a hora de ponta, licenciando 90.000 condutores da Uber, Lyft e outros chamados condutores de “rideshare”. Há dez anos, havia apenas 5.000 táxis potencialmente licenciados a exercer a sua atividade nas horas de ponta da manhã e da tarde. Não é preciso ter um doutoramento em economia para perceber o que acontece quando a câmara municipal reduz a oferta de estradas em 50% ao introduzir ciclovias, mas aumenta os condutores comerciais em 2000%. O preço do produto sobe. Neste caso, o preço é o tempo e a produtividade. A frustração que os condutores sentem é real. Não é uma ficção. Essa frustração, erradamente, pode traduzir-se em raiva na estrada e acidentes.
MB/MS







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