A diplomacia implicaria o envolvimento ativo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas há pouca concordância e muita divisão nesse fórum. – Prof. Alistair Edgar
Guerra Israel/Irão

O Médio Oriente volta a ocupar o centro das atenções internacionais com o recrudescimento das hostilidades entre Israel e o Irão. Numa altura em que o equilíbrio geopolítico global já se encontrava fragilizado pela guerra na Ucrânia e pelas tensões crescentes entre grandes potências, o recente ataque israelita às instalações nucleares iranianas marca uma nova e perigosa fase do conflito.
Para compreender o contexto, as motivações e as possíveis consequências deste confronto, o Milénio Stadium ouviu Alistair Edgar, especialista em política internacional e segurança global, Professor Associado de Ciência Política e Vice-Diretor da Escola de Política e Governação Internacional da Balsillie School of International Affairs, Wilfrid Laurier University, Waterloo.
À luz dos últimos desenvolvimentos, Israel terá considerado que o avanço do programa nuclear iraniano representava uma ameaça existencial imediata. No entanto, como explica o Professor Edgar, não se tratou de um ataque inesperado. Já em 2024, Israel tinha testado com sucesso as suas defesas antimísseis e enfraquecido algumas das capacidades defensivas do Irão. No entanto, os relatórios mais recentes da Agência Internacional de Energia Atómica, indicando que o Irão estaria próximo de ter material suficiente para produzir várias ogivas nucleares, terão precipitado a ofensiva. Para Telavive, a ameaça não poderia ser ignorada.
O silêncio relativo de vários países árabes, como a Arábia Saudita, os Emirados e o Egito, é revelador. Nenhum destes regimes deseja ver um Irão nuclear, não apenas pelo risco de ataque direto a Israel, mas também pelo desequilíbrio de forças que tal representaria na região. A posse de armas nucleares daria a Teerão uma posição de força com a qual nenhum dos seus vizinhos está confortável. Assim, a ofensiva israelita, embora arriscada, poderá não ser totalmente indesejada para algumas destas capitais. Mas o ataque levanta inevitavelmente questões sobre o futuro dos Acordos de Abraão e das tentativas recentes de normalização das relações entre Israel e o mundo árabe. Embora não haja ainda respostas definitivas, os riscos de retração diplomática são evidentes.
Num plano mais global, o conflito espelha a divisão crescente entre os EUA e a Rússia, com Trump a apoiar vigorosamente Israel e Putin a manifestar simpatia pelo Irão, parceiro militar de Moscovo na guerra contra a Ucrânia. Como salienta Alistair Edgar, este não é um “novo eixo” no sentido estrito, mas a convergência de interesses entre Moscovo, Teerão e Pequim ganha cada vez mais forma, sobretudo através do BRICS+.
Quanto ao papel do Canadá, Edgar destaca a posição tradicionalmente moderada de Ottawa no Médio Oriente. Embora apoie o direito de defesa de Israel, o Canadá tem criticado a atuação israelita em Gaza e as restrições à ajuda humanitária. Perante o atual conflito direto com o Irão, a posição mais viável parece ser a de apelo à desescalada e proteção dos civis. No entanto, falta ao Canadá o peso político e económico para assumir um papel central na mediação.
Resta, por fim, a questão mais difícil: haverá ainda espaço para a diplomacia? Edgar acredita que sim, mas admite que a janela é cada vez mais estreita, dependendo da evolução das ações militares no terreno e da capacidade de o Conselho de Segurança da ONU superar as suas profundas divisões internas.
Num cenário em que qualquer erro de cálculo poderá precipitar uma guerra aberta de consequências imprevisíveis, a comunidade internacional assiste, apreensiva, a uma crise que poderá moldar o futuro do Médio Oriente e não só.
Milénio Stadium: No seu ponto de vista, o que motivou Israel a lançar este ataque, neste momento específico?

Alistair Edgar: Sabemos que Israel já tinha conseguido danificar algumas das capacidades de defesa aérea do Irão nos confrontos do ano passado, ao mesmo tempo que demonstrou que os seus próprios sistemas antimísseis eram bastante eficazes. Neste contexto, os relatórios da AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) sobre o incumprimento do Irão e a possibilidade, reportada em maio de 2025, de o Irão conseguir produzir urânio enriquecido suficiente para fabricar entre 9 a 22 armas nucleares, provavelmente levaram Israel a considerar que enfrentava uma potencial ameaça existencial, que exigia ser prevenida através da destruição das instalações de enriquecimento.
MS: Como avalia a reação do mundo árabe? Países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Egito mantiveram-se largamente em silêncio — isso é sinal de apoio tácito ou de prudência diplomática?
AE: Um pouco de ambas. Nenhum destes estados se sentiria confortável com o desenvolvimento de um arsenal nuclear pelo Irão, seja pela possibilidade de utilização contra Israel (embora Israel também detenha armas nucleares, acredita-se que possua pelo menos 90, podendo chegar até 400, e poderia lançar uma resposta devastadora), seja pela influência político-militar adicional que estas armas poderiam conferir ao regime de Teerão. Assim, a redução, atraso ou destruição desta capacidade, a curto ou médio prazo, seria visto como estando no seu interesse.
MS: Como vê a crescente polarização entre os EUA e a Rússia neste conflito? Trump manifestou apoio a Israel, enquanto Putin se posicionou ao lado do Irão. Estamos perante o surgimento de um novo eixo de confronto global?
AE: Não é um novo eixo, mas é, de facto, um eixo. O Irão tem fornecido à Rússia drones de ataque Shahed e mísseis balísticos que esta utiliza na sua invasão e ataques à Ucrânia, visando cidades e populações civis ucranianas. Para além dos seus laços militares diretos com a Rússia, o Irão foi um dos países que aderiu ao BRICS+, juntando-se à China e à Rússia, juntamente com a Índia e a África do Sul.
MS: O Canadá tem tradicionalmente mantido uma política externa cautelosa no Médio Oriente. Neste caso, deveria manter-se neutro, condenar o ataque ou assumir um papel mais ativo na mediação?
AE: Embora o Canadá tenha mantido, em termos gerais, apoio ao direito de Israel se defender de ataques terroristas, também tem condenado a atual campanha militar israelita em Gaza e a privação de ajuda humanitária necessária à população palestiniana. No caso do atual ataque israelita ao Irão, e dos ataques retaliatórios iranianos contra Israel, a posição mais provável, refletida na declaração do G7, será a de apelar à proteção de civis e à desescalada por ambas as partes. Contudo, não é claro de que forma o Canadá poderia assumir um papel mais ativo na mediação; apesar de existirem dezenas de milhares de cidadãos canadianos a residir na região, Ottawa não dispõe de ativos políticos, económicos ou diplomáticos significativos que lhe confiram influência para desempenhar um papel diplomático ativo.
MS: Ainda há espaço para a diplomacia neste momento ou já entrámos numa fase de confronto direto sem retorno? Que passos imediatos seriam necessários para reabrir os canais diplomáticos?
AE: Há sempre espaço para a diplomacia, mas a questão agora é saber se o governo Netanyahu acredita que deve continuar a atacar alvos nucleares e militares iranianos antes de parar com as ofensivas, e se o Irão ainda mantém capacidade militar – mísseis e drones – para atacar Israel. A diplomacia implicaria o envolvimento ativo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas há pouca concordância e muita divisão nesse fórum.
MB/MS







Redes Sociais - Comentários