“A dificuldade financeira não escolhe um único grupo social” – Sayan Das

Para compreendermos melhor os impactos da crise alimentar que se vive em Toronto, conversámos com Sayan Das, Program Manager do Fort York Food Bank, uma das organizações que diariamente presta apoio a milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Mais do que números, esta conversa revela rostos, histórias e dificuldades reais de quem trabalha, estuda, cuida da família, mas já não consegue colocar comida suficiente na mesa. Uma realidade que interpela a sociedade no seu conjunto e exige respostas urgentes, concertadas e duradouras.
Milénio Stadium: De que forma o vosso banco alimentar foi impactado pelo número recorde de visitas registado em 2025 e que desafios operacionais enfrentam atualmente?
Sayan Das: Nas últimas duas semanas, no Fort York Food Bank (FYFB), tivemos um número recorde de utentes, com mais de 7.000 pessoas por semana agora no início de dezembro, à medida que entramos nos meses mais frios do ano. Operamos cinco dias por semana e, ao domingo, temos também um programa de refeições quentes para levar.
Somos uma estrutura pequena, movida por mais de 300 voluntários, com quem construímos relações duradouras e harmoniosas, e por uma equipa fixa de apenas cinco funcionários.
Desde a pandemia da Covid-19, os números aumentaram de forma exponencial e, para acompanhar essa realidade, o nosso trabalho intensificou-se: alargámos horários, reforçámos toda a logística nos bastidores para garantir o fornecimento contínuo de alimentos e mantemos a preocupação de que cada pessoa leve comida suficiente para, pelo menos, três dias da semana, de forma a aliviar a pressão financeira sobre as famílias. Em termos operacionais, com tanta afluência, manter a organização obriga-nos, muitas vezes, a ter pessoas em fila no exterior, ao frio, durante mais tempo do que gostaríamos. Isto deixa-nos desconfortáveis do ponto de vista humano. Estamos constantemente a tentar desenvolver processos que nos permitam servir mais pessoas com dignidade e humanidade, mas isso será sempre um grande desafio à medida que a situação económica se agrava.
MS: Que grupos de utilizadores estão a crescer mais rapidamente?
SD: Estamos a ver cada vez mais pessoas entre os 18 e os 45 anos, bem formadas, com empregos estáveis, que ainda assim não conseguem equilibrar as suas finanças na atual conjuntura económica. Depois de pagarem a renda e as outras despesas essenciais, ficam com a despensa vazia e recorrem ao banco alimentar para complementar a alimentação.
Ao mesmo tempo, os apoios sociais não acompanharam o aumento do custo de vida, o que deixa as pessoas com deficiência ou fora do mercado de trabalho ainda mais vulneráveis. No fundo, a aparência nunca revela o que se passa dentro da casa de alguém.
Atendemos cuidadores únicos de pais idosos, estudantes de doutoramento em universidades prestigiadas, cujas exigências académicas se confrontam com dificuldades financeiras, e jovens pais que chegam com os seus recém-nascidos em busca de ajuda para alimentar a família. A dificuldade financeira não escolhe um único grupo social.
MS: Como estão a gerir a escassez de alimentos e os recursos limitados, numa altura em que a procura nacional ultrapassa dois milhões de visitas mensais?
SD: Estamos integrados na rede do Daily Bread Food Bank e contamos também com doações monetárias individuais que nos permitiram constituir um fundo próprio de cerca de um milhão de dólares canadianos para adquirir alimentos adicionais a preços de grosso. Graças a isso, conseguimos fornecer comida suficiente para até quatro dias a cada utente.
Neste momento, não estamos a enfrentar escassez de alimentos e conseguimos garantir abastecimento a todas as pessoas durante o nosso horário de funcionamento. No entanto, com o aumento contínuo da procura, prevemos que venham a surgir desafios logísticos num futuro próximo e estamos a tentar preparar estratégias de resposta.
MS: Que mudanças estruturais ou políticas considera necessárias para reduzir a dependência dos bancos alimentares a longo prazo?
SD: Em primeiro lugar, é essencial reformular os escalões e estruturas dos apoios sociais para que reflitam a realidade económica atual. Esperamos também que o acesso a habitação a preços acessíveis se torne realmente uma prioridade concreta. A maior parte do rendimento das famílias é hoje absorvida pelas rendas, o que desencadeia uma espiral de problemas.
Por fim, a pressão sobre os bancos alimentares só diminuirá quando houver salários dignos para trabalhos dignos. O salário mínimo e os rendimentos precisam de acompanhar o custo real de vida que os profissionais enfrentam. Quando existir uma remuneração justa pelo trabalho realizado, veremos certamente menos pessoas nas filas dos food banks.
MS: Algum programa recente ou iniciativa comunitária ajudou a aliviar a pressão sobre os vossos serviços? Que resultados estão a observar?
SD: No Fort York Food Bank estamos a criar um sistema de encaminhamento que ligue a rede de combate à insegurança alimentar a outros serviços sociais existentes na cidade, prestados por diferentes organizações, para apoiar os nossos utentes de forma mais completa.
Nos últimos meses, a nossa equipa também tem trabalhado diretamente com alguns clientes no apoio à candidatura a empregos, através de vagas provenientes de parceiros e recomendações, o que ajuda a reforçar o seu perfil profissional. Ao desenvolver este sistema, acreditamos que muitas pessoas poderão voltar a conquistar a sua independência financeira e pessoal, retomando uma vida com dignidade, confiança e contributo para a comunidade.
MS: Quais são as formas mais eficazes de um cidadão comum ajudar a reduzir a insegurança alimentar na sua comunidade?
SD: No Fort York Food Bank, somos profundamente gratos a todos os que oferecem o seu tempo como voluntários. Quem desejar ajudar pode preencher um formulário no nosso site, e será convidado para um turno experimental, com a esperança de construirmos uma relação duradoura que beneficie todos, incluindo os nossos clientes.
Realizamos também duas experiências semanais com grupos empresariais, acolhendo equipas de oito ou mais profissionais que passam cerca de três horas connosco a servir a comunidade. As informações estão disponíveis no nosso site.
Por fim, aceitamos com grande gratidão doações financeiras, em vez de campanhas de recolha de alimentos, pois isso permite-nos comprar produtos a preços de grosso, que chegam depois às cozinhas dos nossos utentes, complementando o apoio que recebemos semanalmente do Daily Bread Food Bank.
MB/MS







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