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A comunidade da música portuguesa

Conheço muito bem a comunidade da música portuguesa, basicamente nasci nela, tendo em conta que o meu pai tocou na banda portuguesa “Os Lords”. Desde os dois meses de idade até aos 13 anos, nunca perdi um único sábado. Eu vi a comunidade dinamizada com bandas no seu auge que todos os sábados tocavam em clubes.

Aqueles que saíram da rotina e tentaram prosseguir dentro da nossa comunidade frequentemente ficaram na comunidade e pouco mais. Isto porque a nossa comunidade tem principalmente apoiado a música pimba, acrescido pelo facto de que era isso que os media promoviam e alimentavam. Não que haja alguma coisa de errado com esse estilo de música, mas em termos musicais existia muito mais a acontecer em Portugal e que nunca foi promovido. Não existiu um avanço em diversificarmo-nos como público, de forma a recebermos o conteúdo musical mais atualizado que Portugal tinha para oferecer – NUNCA. O que torna isto problemático é o momento crítico em que aconteceu – durante a transferência geracional, se assim lhe quiserem chamar, onde a juventude, a geração que deveria continuar a fazer as coisas acontecer e a apoiar a música portuguesa nunca recebeu atenção. Nunca existiu uma prioridade e essa negligência teve resultados terríveis.

Podemos ver claramente que são poucos os clubes onde as bandas se podem apresentar e atuar. Muitos foram encerrados e esse mal espalhou-se aos festivais também, já que localmente costumávamos ter três e agora estamos reduzidos a apenas um. A raiz desta questão deve-se ao facto de que a geração seguinte nunca se identificou com nada em termos musicais, nunca existiu uma música portuguesa em que se revessem porque nem sabiam que existia. Alguns dirão que as pessoas tinham saudades de casa e que a música popular os lembrava desses tempos, mas eu gosto de pensar nisto com ligação aos media, especialmente à rádio e ao facto de se terem aproveitado. Como resultado, sempre que os festivais traziam bandas modernas e relevantes de Portugal, eram poucos aqueles que conheciam as músicas. Nesses festivais, as filas da frente estavam repletas de pessoas em cadeiras de jardim, a olhar para estas bandas e artistas com um ar desinteressado, sendo uma participação sem brilho. E tudo isto quando o custo de trazer estas bandas (custos de atuação, acomodação, voos e refeições) reviam-se em números elevados. Muitas vezes apresentaram aquilo que há de melhor a uma audiência que não só não conhece, mas também não apoia – nem em eventos gratuitos, quanto mais a pagar?

Por isso, em termos de apoio do exterior, tem sido difícil tentar criar uma solução sustentável. Hoje em dia, é mais fácil para os luso-canadianos terem noção do que é a música portuguesa, através da internet e de plataformas como o YouTube, playlists do Spotify, etc. Cheguei à conclusão que está melhor do que há dez anos atrás, mas mesmo assim ainda estamos dez anos atrasados, considerando onde já devíamos estar como comunidade que apoia a música do seu lugar de origem com conteúdo relevante. Todas as outras nacionalidades o fazem e bem, e nós não devíamos ser diferentes.

Reno Silva

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