A amizade entre ecrãs e emoções

Num tempo em que os ecrãs e algoritmos moldam uma parte significativa das nossas relações, permanece uma pergunta essencial: ainda podemos falar de amizades genuínas? A resposta de Elaine Oliveira, psicoterapeuta com formação em Psicologia e um MBA em Gestão de Empresas, é clara: sim, absolutamente. A forma como nos ligamos pode ter mudado, mas a essência das ligações humanas profundas continua viva e bem presente.
Com uma abordagem terapêutica que alia o conhecimento técnico à empatia, Elaine apoia os seus pacientes na construção de relações mais saudáveis e significativas. Para ela, uma amizade não se mede pela quantidade de mensagens trocadas no WhatsApp, mas sim pela qualidade da presença, ainda que virtual. “Falar com alguém todos os dias online não significa, necessariamente, que exista uma amizade profunda – e o contrário também é verdade”, explica. A tecnologia pode aproximar, mas nunca substitui o valor de um vínculo construído com verdade, cuidado e compromisso.
A importância dessas conexões vai para além da esfera emocional. Elaine concorda com a investigadora canadiana Susan Pinker, que defende que os laços sociais têm um impacto direto na saúde e na longevidade. “Esses laços não são apenas agradáveis de ter, são essenciais”, afirma. A psicoterapeuta observa, na sua prática clínica, como o isolamento está frequentemente ligado a sintomas de ansiedade e depressão. “Ter alguém com quem conversar, partilhar alegrias e dificuldades, contribui decisivamente para a regulação emocional”, explica. Laços sociais genuínos oferecem apoio, fortalecem a autoestima e reduzem o risco de doenças mentais e físicas. “É tão importante quanto praticar exercício ou ter uma boa alimentação”, sublinha.

Nos bastidores do poder, da política ou dos negócios, onde os interesses estratégicos dominam, poderá ainda haver espaço para amizades verdadeiras? Elaine reconhece que nestes ambientes altamente competitivos, muitas relações são motivadas por conveniência. No entanto, isso não exclui a possibilidade de laços autênticos. “Em psicoterapia, observamos certos sinais que caracterizam uma amizade verdadeira: apoio mútuo, valores partilhados, confiança e espaço para a vulnerabilidade”, explica. A amizade genuína, mesmo nesses contextos exigentes, exige um esforço adicional para se manter, mas pode florescer quando há transparência e ética.
Essa distinção entre o que é amizade genuína e o que é mera convivência estende-se também ao quotidiano. Como diferenciar um amigo verdadeiro de um “companheiro de copos” ou de um colega com quem temos afinidade ocasional? A resposta está na profundidade da ligação. “Um amigo está presente tanto nos bons como nos maus momentos. Conhece as nossas dores, as nossas vitórias, e permanece ao nosso lado. Já o colega ou o companheiro de copos pode não estar disponível quando mais precisamos”, sublinha. Segundo Elaine, a amizade verdadeira é marcada por constância, lealdade e disponibilidade emocional. “Podemos passar meses sem falar com um amigo, mas saber que ele estará lá quando for preciso faz toda a diferença.”
Mas as amizades não mudam, com o tempo? Para Elaine, não há dúvidas: sim, mudam. Na infância, a espontaneidade e a disponibilidade tornam mais fácil a criação de vínculos. Já na vida adulta, as responsabilidades profissionais e familiares reduzem o tempo livre e tornam os adultos mais seletivos. “Somos mais cautelosos ao partilhar vulnerabilidades e a abrir espaço emocional a novos vínculos. Mas isso não significa que deixamos de precisar de amigos, muito pelo contrário.” Segundo ela, a amizade adulta é mais consciente e pode ser ainda mais profunda, justamente porque é construída com base na escolha, e não apenas na circunstância.
No mundo atual, onde o foco está cada vez mais na performance individual e no sucesso pessoal, cultivar amizades duradouras pode parecer um desafio, mas para Elaine, é precisamente neste contexto que elas se tornam ainda mais importantes. “A amizade é essencial para a regulação emocional e para a construção de um verdadeiro sentido de pertença. O sucesso profissional, por si só, não nos preenche por completo”, afirma. “Quando os pacientes me dizem que sentem um vazio, muitas vezes esse vazio está relacionado com a ausência de vínculos significativos.” Ela acrescenta ainda que a cultura da hiperprodutividade pode alimentar o isolamento. “Vivemos pressionados para sermos eficientes o tempo todo, mas esquecemo-nos de que somos seres sociais. Não basta acumular conquistas. Precisamos de partilhar a vida com outros.” Nesse sentido, a amizade torna-se um antídoto contra a desumanização das relações modernas.
Cultivar amizades implica dedicação, tempo e vulnerabilidade. Envolve estar presente, escutar com atenção, dar apoio e também saber pedir ajuda. São pequenas atitudes que têm um grande impacto: um telefonema, um café inesperado, uma mensagem sincera. E é nessa constância e reciprocidade que nascem e se mantêm os vínculos verdadeiros. “Às vezes um gesto simples pode ser um verdadeiro abraço emocional. E isso transforma o nosso dia”, diz Elaine. A psicoterapeuta defende também que é preciso investir na empatia e na escuta ativa. “Muitas vezes, as pessoas querem ser ouvidas, não necessariamente aconselhadas. Só o facto de estarmos ali, a ouvir com atenção e sem julgamento, já é um enorme gesto de amizade.”
Para quem sente dificuldade em criar ou manter amizades, Elaine sugere começar por pequenos gestos e aceitar que os laços profundos levam tempo a construir. “Não precisamos de ter muitos amigos, mas sim relações que nos façam sentir vistos, respeitados e acolhidos. A qualidade é sempre mais importante do que a quantidade.”
Em suma, a amizade continua a ser um dos pilares fundamentais da vida humana. Pode assumir novas formas, atravessar meios digitais e adaptar-se aos tempos modernos, mas a sua essência permanece inalterada. É na amizade que encontramos apoio, partilha e sentido. Como bem sublinha Elaine Oliveira, “a amizade verdadeira implica confiança, cuidado mútuo e um laço que vai para além da diversão pontual”.
Num mundo que tantas vezes privilegia a produtividade em detrimento da conexão humana, vale a pena recordar que o afeto, a escuta e a presença são valores insubstituíveis. E que, apesar dos ecrãs, dos algoritmos e das rotinas apressadas, a amizade autêntica continua ao alcance de quem estiver disposto a cultivá-la com verdade e dedicação.
MB/RMA/MS




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