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6 de janeiro um dia que fica na história

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DR.

Na semana passada o mundo foi surpreendido com a invasão do Capitólio em Washington DC nos EUA e desde aí que têm surgido muitas perguntas para tentar perceber o que fez com um dos edifícios mais vigiados do mundo fosse atacado. A imprensa nacional e internacional revela que os manifestantes eram apoiantes de Donald Trump e que foram instigados pelo discurso falso do Presidente que se prepara para entregar a presidência a Joe Biden a 20 de janeiro. A democracia foi ameaçada e agora os americanos e o mundo questionam-se sobre qual deve ser o papel de um líder. Alguém que respeite a Constituição e que lute pelos interesses coletivos ou alguém que se julgue acima da lei e que defenda os seus próprios interesses?

Vários líderes internacionais reagiram às imagens de terror de Washington DC, inclusive o primeiro-ministro canadiano, e condenaram aquilo que defendem ser a promoção da violência protagonizada por Donald Trump. Na imprensa há muito que se especulava sobre a possibilidade de uma onde de violência surgir nos EUA depois de Trump ter dito e repetido publicamente que as eleições tinham sido fraudulentas e que Joe Biden não tinha sido eleito pelos americanos. 

Pouco depois do incidente o Twitter e o Facebook reagiram e acabaram por cancelar as contas de Donald Trump e argumentaram que a decisão surgia porque Trump incitava à violência. Mas porquê só agora, pergunta o leitor? Muito se poderá escrever sobre este assunto até porque a mensagem era semelhante ao longo do seu mandato. O facto de cada um, independentemente da sua formação pessoal e do seu grau de conhecimentos, poder dizer e partilhar com os outros o que entende sobre os mais variados assuntos criou aquilo que alguns chamam de “lixeira” e ajudou a desencadear um dos maiores ataques à democracia americana. A liberdade de expressão, como qualquer outro direito, tem limites e o cientista político que entrevistámos esta semana defende que ninguém está acima da lei, nem mesmo o líder dos EUA e que as redes sociais têm a obrigação de analisar os conteúdos que são publicados e partilhados nas suas páginas. 

Alistair Edgar é professor no Departamento de Ciência Política e Assuntos Internacionais da Wilfrid Laurier University e não tem dúvidas de que o grande responsável pelo ataque ao Capitólio foi Donald Trump que “mentiu consistentemente sobre a eleição” e incitou ao ódio. Ainda assim Edgar sublinha que existem outros responsáveis que também devem sofrer as consequências das suas ações, nomeadamente os funcionários da Casa Branca que permitiram a invasão e os manifestantes que fizeram mortos e deixaram um rasto de destruição. 

Agora sabemos que o ataque foi planeado através das redes sociais, que contou com o apoio de alguns polícias responsáveis por proteger o Capitólio e que mais manifestações foram convocadas para outros estados americanos. O envolvimento da polícia ajuda a explicar que os manifestantes se tenham deslocado a gabinetes específicos dentro do Capitólio. O Washington Post refere esta semana que existem oito investigações a decorrer para avaliar o que falhou na resposta da polícia. Mas também existem polícias traumatizados e afetados a nível psicológico porque falharam na sua missão de proteger o Capitólio. 

Alguns dos invasores são apoiantes do movimento QAnon, um grupo que se baseia numa teoria da conspiração (TC) e que defende que uma rede de pedofilia adoradora de Satanás é liderada por democratas poderosos que bebem o sangue das crianças para viverem para sempre. O grupo surgiu em 2007 e cresceu durante a pandemia, inclusive no Canadá. 

Em novembro o Milénio Stadium dedicou uma edição às teorias da conspiração e Alison Meek, professora do King’s University College, disse ao nosso jornal que um bom exemplo de interferência das teorias da conspiração em campanhas políticas era justamente as últimas eleições dos EUA porque pessoas que apoiavam a QAnon tinham votado em Donald Trump. O que nos faz pensar que algumas teorias da conspiração podem ter impactos e consequências perigosas no mundo real. O FBI já tinha classificado o QAnon como uma ameaça terrorista doméstica e pelo que percebemos esta semana o Ministério de Segurança Publica do Canadá está a analisar a possibilidade de juntar outros grupos à lista de organizações terroristas que ameaçam a segurança nacional. 

Em agosto de 2019 o Canadá criou o programa “Digital Citizen Initiative” – o objetivo é ajudar a acabar com a desinformação e ajudar a desenvolver a cidadania. Talvez um caminho semelhante tenha que ser trilhado nos EUA, com ou sem Donald Trump no poder, até porque o trumpismo não morreu. A violência vai continuar a ser alimentada por teorias da conspiração e os extremistas vão continuar a aproveitar as oportunidades para espalhar o caos. O próximo Presidente dos EUA tem agora uma oportunidade para mostrar aos americanos um tipo de liderança diferente. 

Milénio Stadium: Quem é responsável pelo ataque ao Capitólio e quais são as consequências que o responsável deve enfrentar?

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Alistair Edgar é professor no Departamento de Ciência Política e Assuntos Internacionais da Wilfrid Laurier University. (DR).

Alistair Edgar:  O indivíduo mais responsável é aquele que todos reconhecemos – Donald Trump -, que abusou de sua posição como Presidente, mentiu consistente e repetidamente sobre a eleição e que, ao longo de seu mandato, encorajou frequentemente, incitou ou (na melhor das hipóteses) falhou em condenar atos de violência perpetrados pelos seus partidários mais extremistas contra qualquer pessoa que ele sentisse que não concordava com ele. No caso específico deste ataque, que equivale a uma tentativa de golpe (que fracassou), Trump disse clara e repetidamente aos seus apoiadores para “lutarem”. Outros – Rudy Giuliani sendo um dos mais notáveis – ecoaram e promoveram as mentiras de Trump, e também são responsáveis pelo que aconteceu. Outros funcionários de Trump na Casa Branca apoiaram eventos que trouxeram os manifestantes a DC. Todos eles deveriam enfrentar consequências políticas – se o impeachment é viável é uma questão diferente do que se o Presidente deveria ser destituído e se ele deveria ser impedido de exercer qualquer cargo público no futuro. Estes funcionários também devem enfrentar consequências legais por responsabilidade civil ou criminal. Além desse nível de “liderança”, é claro, os manifestantes individuais que invadiram o Capitólio, ou aqueles que o planearam e apoiaram, devem enfrentar acusações criminais – e muitos estão a ser identificados e investigados para sofrerem as consequências dos seus atos. 

MS: De que tipo de líder é que precisamos numa democracia?

AE: Para começar, aquele que compreende e respeita as normas básicas da democracia e do(s) Estado(s) de direito, e qualquer forma de constituição que um determinado país tenha como expressão dessas normas. Mas um bom líder também é aquele que se considera “sujeito à lei” e responsável perante a lei, e responsável perante todos os cidadãos. Depois desses componentes básicos, mas críticos, precisamos de líderes que tenham o apoio e a promoção dos interesses gerais dos cidadãos como o seu valor central – e não de “líderes” que servem a si próprios ou aos interesses especiais de poucos. Ironicamente, nos EUA, foram os Republicanos que reivindicaram esse papel como “do povo” e acusaram os Democratas de representar “elites ricas” (ou “comunismo” que parece ir contra ser uma “elite rica”), enquanto na realidade a sua atuação tem sido o oposto. 

MS: O cerco ao Capitólio foi planeado online. Isto significa que precisamos de mais regulamentação nas redes sociais?

AE: Acho que a questão deveria começar com “como os próprios provedores de redes sociais devem ser responsabilizados legal e financeiramente” caso se verifique que eles permitiram intencionalmente que as suas plataformas fossem usadas para fins ilegais. Se o Twitter ou o Facebook enfrentassem problemas de responsabilidade legal credíveis por não estabelecer e aplicar estes padrões (em vez de ignorá-los para terem lucro), as redes sociais seriam mais responsáveis e iam examinar o seu conteúdo antes de precisarmos considerar a regulamentação governamental de conteúdo em si. Vejo a “censura” por parte do Governo como a abordagem errada – mas “liberdade de expressão” não é o mesmo que “faça o que quiser” ou um pedido de imunidade de acusação. Temos leis de calúnia e difamação pelo mesmo motivo – sermos responsáveis por aquilo que “sentimos que temos o direito” de dizer, mesmo que seja uma mentira; e pelo menos alguns daqueles que espalharam e repetiram essas mentiras agora enfrentam grandes ações judiciais por danos. Até a Fox News decidiu que precisava diminuir algumas de suas “reportagens” para evitar uma possível ação legal.

MS: Depois do incidente, o Twitter e o Facebook suspenderam as contas do Presidente Donald Trump. Acha que esta foi a decisão certa?

AE: Sim, totalmente – ele sempre abusou da sua posição para espalhar e repetir mentiras e para se envolver em condutas que poderiam levar à violência. As contas de Donald Trump deveriam ter sido suspensas muitas semanas antes.

MS: Quem são os desordeiros envolvidos no cerco ao Capitólio e o que é que podemos aprender com esta informação?

AE: Alguns – talvez muitos – são apenas indivíduos mal informados que escolheram acreditar nas mentiras que Trump espalhou e nas mentiras espalhadas por aqueles ao seu redor; outros parecem ser extremistas de direita em busca de violência antigovernamental que usam Trump para justificarem as suas ações ou para desculpá-las. O FBI e outras agências de aplicação da lei estão a identificá-los ou já conhecem muitos dos extremistas. Uma coisa que já sabemos é que é muito fácil para muitas pessoas serem enganadas por este tipo de teorias da conspiração – isto não é nada novo, mas agora há mais dinheiro envolvido na disseminação destas teorias e parece que há cada vez menos interesse em reconhecer uma mentira. 

MS: Na semana passada o primeiro-ministro Justin Trudeau disse que o Canadá vai ser “extremamente vigilante” para proteger a democracia. Como é que podemos proteger uma democracia deste tipo de perigo?

AE: Um exemplo é a “Digital Citizen Initiative” que foi estabelecida pelo Governo do Canadá para ajudar os canadianos a se tornarem mais alfabetizados sobre os media, criticamente conscientes e para identificarem desinformação (isto é, “informação errada” e “mentiras deliberadas e distorções”). O programa faz com que mais pessoas sejam capazes de participar em debates informados e baseados em evidências e dá às pessoas a possibilidade de exigirem responsabilidade dos governos em todos os níveis (local, provincial, federal). Melhor educação, conscientização e transparência são ferramentas essenciais para os indivíduos. O que não remove necessariamente a intolerância, o ódio ou motivações semelhantes, mas deve ajudar mais pessoas a reconhecer a desinformação. Permanece nas mãos das agências de aplicação da lei monitorar e abordar as atividades de grupos – dentro ou fora do Canadá – que procuram incitar ao ódio e à violência deliberadamente. 

Joana Leal/MS 

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