O mercado dos elétricos vai de vento em popa, tanto na compra de veículos como no respetivo consumo de energia. Em contraste, as vendas de viaturas novas a diesel atingiram mínimos históricos. Um fenómeno a que não é alheio o desaparecimento deste tipo de motor dos catálogos das marcas.
A transição energética também se tem refletido nos consumos da energia elétrica para carregamentos, que dispararam 66% nos primeiros nove meses do ano, em comparação com 2023. Mas, naquele período, também aumentou os consumo de combustíveis, com o gasóleo a ser o único a registar uma ligeira diminuição.
Segundo a Mobi.E, realizaram-se mais de 4,3 milhões de carregamentos elétricos, efetuados por mais de 200 mil utilizadores distintos. Dados da Direção-Geral da Energia e Geologia, apontam para menos 125 mil toneladas de gasóleo vendidas, mas mais 5% da gasolina 95 e de 30% do Autogás (GPL).
De acordo com dados da ACAP (Associação Automóvel de Portugal), de janeiro até ao mês passado foram matriculados 13 784 ligeiros a gasóleo, representando apenas 8,7% do mercado. A título de exemplo, em 2018, ano antes da pandemia, o diesel representava 53,3% das vendas.
A aparente contradição entre uma certa estabilidade do consumo de gasóleo e o recuo na venda dos diesel novos pode ser explicada pelo aumento da importação de usados e pelo envelhecimento do parque automóvel, que ronda os 7,5 milhões de veículos.
ACAP defende incentivo
Helder Pedro, secretário-geral da ACAP, recorda que “cerca de 20% dos veículos têm mais de 20 anos”, o que só por isso implica maiores consumos. E, por outro lado, nota aquele dirigente, a maior parte dos veículos importados têm sete ou mais anos.
“Isso não é bom para as metas de descarbonização. O Governo poderia ter dado um sinal claro ao introduzir um incentivo ao abate. Propusemos 129 milhões de euros, que permitiria a renovação de 40 mil veículos. Ao invés, o incentivo limita-se à aquisição de veículos elétricos, não chegando a uma dotação de 20 milhões [três mil veículos]”, sublinhou.
Faltam viaturas
Do lado da importação, Nuno Silva, presidente da Direção da Associação Portuguesa do Comércio Automóvel, reconhece “uma grande falta de oferta de viaturas mais recentes diesel no mercado”. E ainda existe procura por quem faz “um grande número de quilómetros e necessita dessa alternativa”, enquanto os preços dos veículos estabilizou.
Do lado dos elétricos, Nuno Silva destaca o aumento da procura “à medida que começam a ter preços mais aproximados dos patamares de valor definidos pelos portugueses”.
Nos combustíveis, a EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes) destaca que “apenas este ano é que o consumo de gasóleo desceu 4% (cerca de 125 mil toneladas), comparado com o mesmo período do ano passado, no qual a gasolina subiu 5% e o autogás 30%”. Todos os produtos recuperaram após a pandemia, tendo atingido em 2023 volumes de vendas superiores aos registados em 2019. A associação, que sempre se mostrou crítica do caminho imposto pela Comissão Europeia (fim dos motores a combustão), sublinha que “só atingiremos os difíceis objetivos impostos para a descarbonização dos transportes com a participação de todos os vetores energéticos disponíveis”. E defende que “a eletrificação não será solução para os transportes pesados, pelo menos no curto/médio prazo, e muito menos na aviação e na marinha”.
Transportar mercadorias e passageiros será ainda mais “verde”
Com todas as atenções focadas nos automóveis de passageiros, convém salientar que também os outros setores, como os transportes rodoviário e marítimo de mercadorias e a aviação estão a fazer esforços para descarbonizar as suas frotas.
Os veículos pesados – camiões e autocarros – são responsáveis por cerca de um quarto das emissões de CO2 do transporte rodoviário na UE e por cerca de 5% das emissões totais.
O transporte marítimo, por seu lado, responde por 3% das emissões daquele gás e a aviação destaca-se pelos 172 milhões de toneladas de CO2 emitidas, no ano passado, na Europa.
Com a impossibilidade de eletrificar a maior parte destas frotas, a solução pode passar, segundo a EPCOL, pelos combustíveis (líquidos e gasosos), de “zero ou baixo teor de carbono, em ciclo de vida completo, produzidos a partir de matérias-primas alternativas como biomassa sustentável, agrícola e florestal, e resíduos (biocombustíveis), e de hidrogénio verde e CO2 capturado (combustíveis sintéticos e renováveis derivados do hidrogénio)”.
Este tipo de combustíveis pode ser usado nas infraestruturas e nas frotas existentes em todos os segmentos de transporte.
A navegação de longo curso pode recorrer, também, à propulsão assistida por vento. Um cargueiro francês atravessou o Atlântico, em agosto passado, usando quase inteiramente a força do vento.








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