Vítor M. Silva

O erro de privatizar (ainda mais) os cuidados de saúde

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O financiamento público do sector da saúde deveria ser fonte de orgulho nacional no Canadá, em Portugal e nos países em que esta posição política prevalece. Quem defende e acredita na privatização dos cuidados de saúde está redondamente enganado.  Estes acham que os privados devem ser autorizados a trabalhar juntamente com o Serviço Nacional de Saúde do Canadá (Medicare). 

Dos países que fazem parte da (OCDE) Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico com serviço nacional de saúde financiado pelo estado, o Canadá tem já uma percentagem entre público de 70% e privado de 30% dos gastos com saúde. Mas 30% é já uma grande fatia se tivermos em consideração que, ainda há bem pouco tempo, praticamente 100% dos cuidados médicos oferecidos aos Canadianos estavam sob a total responsabilidade do Governo.  

Um dos grandes problemas da privatização do sistema são os recursos humanos.  Os profissionais   de saúde serão naturalmente aliciados a mudar-se para o privado, deixando lacunas por preencher naturalmente no público. Concretamente no Ontário é preocupante a sistemática privatização de mais e mais serviços de saúde. E este aumento é alimentado pelo governo conservador de Doug Ford sem que a população seja consultada se será realmente isto que quer e que benefícios isto lhe traz.  O governo continua a afirmar que a privatização economizará o dinheiro dos contribuintes, embora haja evidências abundantes de que a privatização não economiza dinheiro e que quase sempre resulta numa qualidade inferior do serviço. Até nos testes COVID-19, o Governo adjudicou uma grande parte desse serviço a privados. Temos já aqui na Província do Ontário oitocentos (800) unidades de saúde privadas que, entre outros serviços, oferecem serviços de diagnóstico, cirurgias, diálise, raios X e ultrassons e estudos de sono. 

Não é justo o pobre e o rico não terem o mesmo direito à saúde. Isso é inadmissível. O Governo Provincial do Ontário tem a ambição de privatizar a saúde. Os hospitais privados estavam proibidos desde 1973, mas infelizmente parece que estamos a retroceder. Que pena. Esta medida será um golpe mortal para o serviço de saúde do Estado e será também o fim de um acesso, igual para todos, a algo que deve ser da única responsabilidade do estado, o bem-estar e a saúde dos cidadãos canadianos. O serviço nacional de saúde reduz, e de que maneira, as diferenças sociais. É um grande suporte e uma grande bandeira do combate à desigualdade. Qualquer pessoa que precise de um médico vai ao Hospital, mas querem-nos tirar a gratuidade disso. Não deixemos que nos usurpem um dos grandes privilégios da nossa sociedade. Mas como diria Walt Disney a melhor maneira de iniciar é   parar de falar e começar a fazer, e não deixemos que nos tirem algo que tanto demorou a conquistar. 

“O que temos em Portugal é único. O SNS não é apenas urgências ou consultas: é um abraço de fraternidade e humanidade que não deixa ninguém para trás.

Muitos de nós sabem onde estas escadas vão dar… a um lugar onde a esperança pode parecer frágil, mas onde, todos os dias, se renova.

É tempo de deixarmos os populismos e a tentação de tratar a saúde como um negócio. O SNS é, sem dúvida, a maior força de Portugal. “O Serviço Nacional de Saúde é o meu melhor poema” — António Arnaut

Vitor M. Silva/MS

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