O 25 de Abril segundo o meu pai

Os meus valores de Abril foram-me integralmente transmitidos pelo meu Pai Guilhermino . Recebi dele um legado sólido assente na liberdade e nas garantias cívicas: o acesso universal à educação, um Serviço Nacional de Saúde geral e gratuito e uma Segurança Social pública. Com ele aprendi que a dignidade humana passa pelo direito à habitação, pelo pleno emprego com direitos, por salários e pensões justas e por uma velhice protegida. O seu ideário era claro: o combate à corrupção, o fim dos latifúndios e a erradicação da especulação.
O meu pai recordava frequentemente o peso sufocante da ditadura na nossa aldeia transmontana. Contava como a PIDE ali surgiu, um dia, para prender um vizinho pelo “crime” de ouvir rádio. Narrava o episódio trágico-cómico de uma banda filarmónica que, ao chegar a uma aldeia de Vila Real, viu a população fugir e trancar-se em casa; ao verem os músicos fardados, o medo instintivo fez as pessoas confundirem a arte com a repressão da GNR.
Foi o meu pai quem me ensinou que era possível viver num mundo sem medo. Ele descrevia os métodos macabros da PIDE – a tortura da gota de água, a extração de unhas, o sadismo de inquisidores modernos – para que eu valorizasse o livre-arbítrio. Através dele, abracei os valores sociais, democratas e progressistas que hoje posso semear livremente. Ensinou-me a repelir o fascismo com a mesma força com que me ensinou a respeitar as mulheres, a defender os jovens e a valorizar cada trabalhador, independentemente da sua origem ou identidade.
Hoje, 50 anos depois da Revolução dos Cravos, sinto que essa Liberdade e essa Democracia enfrentam uma ameaça real. O populismo e a extrema-direita xenófoba cavalgam o descontentamento social, infiltrando-se em setores outrora progressistas e aproveitando-se de escândalos para minar as instituições.
O meu pai partiu em outubro de 2023. Partiu a tempo de não testemunhar o que consideraria um profundo retrocesso civilizacional: ver pelo mundo fora tantos partidos de matriz fascista ocupar lugares nas diferentes “casas da democracia” que ele tanto prezava. Para quem viveu o silêncio das aldeias transmontanas, ver o ódio ganhar voz parlamentar seria uma dor insuportável.
Honrar a memória do meu pai é, agora mais do que nunca, manter acesa a chama daquela madrugada de 1974. Não podemos permitir que o esquecimento abra caminho à tirania. Cinquenta anos depois, a lição permanece viva: a democracia não é um estado garantido, mas uma construção diária.
Obrigado, pai, por cada ensinamento e pela coragem de acreditar. A Liberdade saiu à rua e, por mais que tentem erguer muros de intolerância, o nosso dever é continuar a deixá-la passar. Hoje e sempre: 25 de Abril, sempre!
Vítor Silva/MS







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