Vítor M. Silva

A Procissão do Vazio

Estamos em plena época de festas. Com a chegada do bom tempo, as romarias e celebrações vêm para ficar; instalam-se com o sol de maio e prometem estender-se até que o calendário de setembro dite o regresso ao mau tempo.

A procissão saiu à rua com toda a pompa e circunstância que este tipo de manifestação exige. As ruas estavam devidamente engalanadas, os sinos tocavam com uma força e vigor que pareciam querer despertar os mortos, e o povo juntava-se ao longo dos passeios com aparente devoção. No entanto, algo de profundamente estranho saltava à vista de quem se atrevesse a olhar para o desfile por mais tempo do que o necessário para tirar uma fotografia: o andor principal, aquele que deveria ser a essência de tudo isto, simplesmente não estava lá. À frente do cortejo, o Presidente da instituição seguia impávido e sereno. Segurava a vara da sua irmandade com a rigidez de quem empunha um cetro papal, caminhando com a solenidade de quem carrega o peso do mundo sobre os ombros. Mas a verdade era nua e crua: as suas mãos apertavam apenas o nada. O mais irónico desta encenação surrealista é que ninguém parecia dar pela falta do andor principal. O público aplaudia o “nada” e a comitiva sorria, não para os fiéis, mas para os ecrãs dos telemóveis que registavam o momento. Era uma encenação perfeita de uma estrutura que, de tanto olhar para o espelho, se esqueceu de para que serve. Atrás, as bandas filarmónicas tentavam preencher o silêncio espiritual com a sua música. Estes músicos, que valem ouro e que são muito mais do que meros figurantes, esforçavam-se por disfarçar a ausência do protagonista da festa com a qualidade do seu instrumental. Logo a seguir, vinha o povo desta estranha procissão. Aparecem porque foram convocados, talvez movidos por uma réstia de fé, mas caminham com o olhar perdido de quem não faz a menor ideia da missão que ali desempenha. Seguram velas sem chama, marcham fora de ritmo e trocam olhares confusos, ansiando apenas pelo final do percurso para reclamarem o seu lugar, como se o chegar mais depressa ao fim fosse uma forma direta de alcançar a divindade.

Este retrato é fiel. Há festa, há barulho e há gente na rua, mas o centro, a causa, o andor que justifica a caminhada, perdeu-se algures num armazém esquecido. A procissão continua a passar, mas já só leva consigo o vazio de quem se contenta com a moldura, tendo já vendido o quadro há muito tempo. Vivemos tempos de “instituições de fachada”, onde o Presidente prefere levar o varal vazio do que admitir que a imagem se partiu ou que nunca chegou a existir. O que importa é o desfile, o clique da câmara e a ilusão de movimento. Mas uma procissão sem andor principal é apenas uma caminhada sem destino. Se o andor principal é a ausência, o que estamos afinal a celebrar? Talvez a nossa própria capacidade de bater palmas ao nada, enquanto o bom tempo de setembro não chega para levar o que resta desta ilusão.

“Não seria o não ser a única realidade absoluta? Eis um paradoxo à altura do paradoxo deste mundo”. E. M. Cioran

Vítor M. Silva/MS

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