Vítor M. Silva

A lavadeira

Creditos: DR.

A lavadeira saiu de casa ainda antes de o dia se decidir a nascer. O céu era um pano cinzento, sem costura, e o frio entrava-lhe pelos ossos como se também quisesse lavar-se. Levava a trouxa à cabeça, bem composta, e no coração levava um destino mais antigo do que ela: Belém, o presépio, o lugar onde todos os caminhos parecem acabar e recomeçar ao mesmo tempo. Não ia por promessa feita em voz alta, mas por aquelas que se fazem em silêncio, quando a vida aperta e aprendemos a pedir pouco.

Caminhava devagar, sentindo o peso conhecido da roupa molhada de outros dias, lembrando-se das mãos da mãe, das mãos da avó, que fizeram o mesmo caminho antes dela. O mundo muda, diziam-lhe, mas a água continua fria e o sabão continua a arder nas feridas pequenas.

Antes de seguir pela estrada maior, desviou-se como sempre para os tanques da rua do Pousado, em Carlão. Era ali que parava para descansar o corpo e organizar o pensamento. Os tanques tinham pedra gasta, marcada por gerações de lavadeiras, e a água corria com uma paciência que parecia saber tudo. Pousou a trouxa no banco de pedra, arregaçou as mangas e deixou as mãos mergulharem. O frio acordou-lhe a pele, mas também lhe trouxe uma espécie de sossego.

Foi então que ouviu passos, leves, quase envergonhados. Quando levantou os olhos, viu o Vítor. Reconheceu-o logo, embora estivesse diferente, com um ar mais distante, como se trouxesse outros céus dentro de si.

— Não pensei encontrar ninguém a esta hora — disse ele.

— A água não escolhe horas — respondeu ela, com um meio sorriso.

Ficaram ali um instante, só a ouvir o correr da fonte. Depois ele contou-lhe que agora vivia no Canadá, um nome grande que soava a frio e a distância. Falou da neve, das casas aquecidas por dentro e do silêncio que cai cedo à tarde. Disse que trabalhava muito, que aprendeu outra língua, mas que havia coisas que não se aprendem nunca a dizer.

— A minha mãe morreu há um mês — acrescentou, quase num sopro. — A Laura.

A lavadeira sentiu o nome bater-lhe no peito. A Laura, claro. Lembrou-se dela jovem, de lenço na cabeça, a rir enquanto esfregava lençóis, a dizer que a vida custa menos quando se canta. Passou a mão pela água, como se pudesse tocar o passado.

— As mães não morrem de repente — disse. — Ficam espalhadas. Ficam nos tanques, nas casas, nas palavras que ainda usamos sem pensar.

— Vou ao presépio — disse ela —. Levo o teu nome e o da tua mãe. Há luz que atravessa oceanos. Nem sempre vou com os pés, às vezes só com o pensamento. O importante é não ir sozinho.

Falou-lhe então do presépio, das figuras pequenas, gastas pelo tempo, do Menino deitado numa palha pobre, igual à de tantas casas. Disse-lhe que ia acender uma vela, como fazia todos os anos, e que este ano levaria também o nome da Laura e o dele.

— A luz não precisa de passaporte — acrescentou.

O Vítor respirou fundo. Os olhos encheram-se-lhe de água, mas não chorou. Agradeceu em silêncio, como quem recebe algo maior do que esperava. Prometeu voltar a Carlão, aos tanques, quando pudesse, quando o inverno do Canadá deixasse.

A lavadeira pegou de novo na trouxa e despediu-se. Seguiu caminho, sentindo o peso mais leve, como se tivesse deixado parte dele na conversa. Atrás de si, nos tanques da rua do Pousado, ficou a água a correr, levando consigo o nome de Laura, dito com cuidado, para que não se perdesse.

Vitor M. Silva/MS

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