OpiniãoAugusto Bandeira

“Uma conversa com o Pai Natal”

Photo: @copyright

Confesso: quando recebi o convite para entrevistar o Pai Natal, na semana do Natal, achei que era brincadeira. Aceitei-o com muito orgulho e, eu com tanta coisa para falar com o homem vestido de vermelho, comecei por marcar o local da entrevista. Achei que uma biblioteca seria o melhor cenário. Depois, dei seguimento à preparação da conversa, para que nada ficasse por dizer, pedir ou perguntar.

E lá estava ele, sentado num cadeirão da biblioteca, ao lado da lareira, a ajeitar a barba e a soprar para cima dos óculos, como quem tenta desemperrar um GPS emocional depois de dar demasiadas voltas ao Polo Norte. Quando me aproximei, eu, cheio de vergonha e muito emocionado, confesso, com algum receio de que ele descobrisse que eu nunca acreditei no Pai Natal, recebeu-me com um ar simpático e atento. Olhou-me de cima a baixo e perguntou:

– Então, meu jovem, o que queres pedir este ano?

Disse-o com aquele tom caloroso de quem já ouviu milhões de pedidos, alguns impossíveis, outros quase ridículos, mas nunca julga ninguém… exceto, às vezes, os seus ajudantes, quando o chocolate desaparece misteriosamente.

Eu, na minha calma e muito bem preparado, sentei-me à frente dele, respirei fundo e disse:

– Olhe, Pai Natal… este ano o meu pedido é um bocadinho diferente. Ando um pouco preocupado com o que se passa na sociedade, mas já me convenci de que nada vai mudar.

Ele ergueu as sobrancelhas.

– Diferente como? Não me digas que queres outra vez um cavalo mágico. A alfândega ainda não me perdoou a última tentativa…

Sorri.

– Não, nada disso. O que eu queria mesmo era que me levasse uns recadinhos. Nada de pesado, prometo. Só umas sugestões para melhorar o mundo… sabe como é, aquela magia natalícia aplicada à vida real.

Ele acenou, interessado.

Eu, cheio de coragem e pronto para pedir, continuei.

Primeiro recado: para os políticos

– Pai Natal, se puder, leve por favor uma mensagem aos nossos políticos, mas a todos em geral. Isto está a ficar uma caldeirada pior do que uma geringonça, especialmente entre os que não conseguiram chegar ao poder. É só uma coisa simples: “Queridos governantes, especialmente alguns que estão na oposição, o presépio é que tem figuras decorativas, não a cultura nem o desporto.”

O Pai Natal deu uma gargalhada que fez tremer as bolas da árvore de Natal; quase metade caiu ao chão.

– Ah! Queres dizer que era bom deixarem de misturar política com desporto e cultura, como se tudo fosse farinha do mesmo saco?

– Isso mesmo, Pai Natal. Cada um no seu lugar, sem temperos estranhos.

Ele anotou tudo num caderno onde se lia, na capa: Pedidos Esquisitos, mas de Boa Intenção.

Sorri. Afinal, ele pensa como eu.

Segundo recado: para a comunidade

– E já agora, Pai Natal, se não for pedir muito… leve também uma cartinha a algumas individualidades da nossa comunidade. Uma coisinha simpática, cordial e natalícia. Algo como: “Caros senhores e senhoras, passar a tocha não dói. Saber respeitar faz parte da educação. Ajudar sem esperar retorno é coisa de homens com H grande e de mulheres grandes líderes. Podem prometer isso a curto e médio prazo?”

O velhinho riu-se outra vez.

– Ah, sim… aquela ideia de que ninguém é substituível. Mas alguns acreditam que são imortais e oferecem com uma mão, esperando receber com duas, é isso?

Fiquei corado, sem saber bem o que dizer.

– Pronto, pronto… também não vamos exagerar. Só queria sugerir que dessem espaço à nova geração, que não desprezassem os outros e que não julgassem que só eles é que sabem. Ou, pelo menos, que deixassem os jovens meter o pé na porta, antes que a porta ganhe uma fechadura digital que só eles saibam usar.

O Pai Natal fez um ar pensativo.

– Sabes, às vezes as pessoas só precisam de um empurrãozinho doce, um abraço ou uma palmadinha nas costas. Tudo de forma simbólica.

Mais uma gargalhada minha.

– Exatamente. E se vier embrulhada em papel brilhante, com uns lacinhos coloridos, ainda melhor.

Chegou a hora mais triste: a despedida

O Pai Natal levantou-se, estalou as costas, aparentemente, carregar sacos de prendas durante séculos tem efeitos dolorosos que se vão sentindo ao longo dos anos, e piscou-me o olho.

– Está feito. Levo tudo comigo. Mas olha… o teu presente deste ano és tu quem o constrói. Eu só entrego as mensagens.

E desapareceu pela porta da lareira, como quem entra para o turno da noite mais mágico do ano.

Fiquei a olhar para as cinzas tímidas que ainda brilhavam. Pensei que, se o Pai Natal realmente entregasse aqueles recados, talvez o mundo acordasse um bocadinho mais leve, mais aberto e mais pronto para o futuro.

E se não os entregar… bem, pelo menos tentei. E no Natal, tentar já é meio caminho para acreditar.

Desejo a todos os leitores um santo e feliz Natal. Que a melhor prenda seja muita saúde e muita união.

Bom fim de semana!

Augusto Bandeira

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