OpiniãoAugusto Bandeira

Presidenciais não são Legislativas!

Uma confusão frequente com consequências políticas

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Caros amigos, depois de um fim de semana em grande com bons amigos com os pés debaixo da mesa, nada melhor do que fazer uma pequena reflexão e análise das eleições presidenciais, que muitos fazem confusão e baralham tudo, outros não se conseguem ver ao espelho nem pensam bem da forma que decidem o voto. Por isso certas atitudes fazem baralhar muita gente, uma das maiores confusões que se repete em períodos eleitorais em Portugal, e que voltou a ouvir-se nestas eleições, é a mistura entre eleições presidenciais e eleições legislativas. Embora ambas sejam eleições nacionais, servem propósitos muito diferentes e produzem efeitos políticos distintos.

Nas eleições legislativas, os portugueses elegem os deputados à Assembleia da República. É dessa eleição que resulta a composição do Parlamento e, consequentemente, o Governo. O primeiro-ministro surge da maioria parlamentar e governa o país no dia a dia.

Já nas eleições presidenciais, o que está em causa é a eleição do Presidente da República, que não governa, tenham calma, não confundam as coisas, muitos acham que o presidente governa, não meus caros… mas tem funções fundamentais. Garante o regular funcionamento das instituições, pode dissolver o Parlamento, vetar leis, convocar eleições e atuar como árbitro político em momentos de crise. É um cargo unipessoal, acima dos partidos, pelo menos em teoria. É triste ouvir pessoas dizer que se fosse o… ia mudar a governação.

É precisamente aqui que muitos eleitores se enganam, votar num Presidente não é votar num Governo, nem é um voto direto de apoio ou rejeição ao Executivo em funções. No entanto, na prática política, os resultados presidenciais têm sempre leitura política, e foi isso que aconteceu agora.

Sim claro, houve a pesada derrota de Marques Mendes, do cidadão Marques Mendes, não do PSD. A derrota expressiva de Luís Marques Mendes, sim, candidato apoiado pelo PSD, foi politicamente significativa. Não apenas pelo resultado em si, mas pelo contexto, Marques Mendes era visto como o candidato do partido que atualmente governa o país, liderado por Luís Montenegro.

Custa perceber, ou fazem que não percebem, é melhor falar do que lhes convém, alguns até festejaram como que tivessem ganhado a lotaria, valha-nos Deus e a Santa Engrácia, é claro que se percebeu que mesmo tratando-se de eleições presidenciais, o eleitorado acabou por enviar uma mensagem clara. Quando um candidato apoiado pelo partido do Governo tem um resultado fraco, isso é lido como um sinal de desgaste político, descontentamento ou, no mínimo, falta de entusiasmo do eleitorado. Mas tenham calma, não significa, automaticamente, que o Governo caiu em desgraça ou que perdeu legitimidade para governar, muitos gastaram foguetes parece que iam governar, chama-se a isso políticos de meia tigela, não confundam as coisas, o que isto significa é que o capital político do PSD não se transferiu para o seu candidato presidencial, e isso é sempre relevante.

Ah… esperem aí, depois vieram os aflitos reclamar porque o primeiro-ministro não declarou apoio a nenhum dos candidatos na segunda volta. Meus caros virem-se para a senhora dos aflitos que vos pode ajudar, muitos parabéns ao primeiro-ministro, aquele silêncio estratégico de Montenegro perante a ida a uma segunda volta, o facto de o primeiro-ministro Luís Montenegro não assumir apoio público a nenhum dos candidatos é tudo menos inocente. Trata-se de uma decisão política calculada, menos inteligente é os que julgavam que ele ia abrir caminho, e reparem, há várias leituras possíveis. Proteção do Governo, ao não se associar a nenhum candidato, Montenegro evita que uma eventual derrota na segunda volta seja interpretada como mais uma derrota direta do Executivo, depois tem o reconhecimento da autonomia presidencial, o silêncio pode ser apresentado como respeito pela natureza suprapartidária do cargo de Presidente da República, chama-se a isto saber estar na posição. Mas ainda tem outras importantes, como, as consequências políticas, no curto prazo, não há consequências institucionais diretas, o Governo mantém-se em funções, o Parlamento não muda e não há crise formal.

Uma coisa é certa e o PSD tem de olhar em frente porque, no plano político, há sinais importantes, o Presidente que vier a ser eleito poderá sentir-se mais autónomo e menos condicionado pelo Executivo.
Depois disto tudo, a conclusão, apesar de as eleições presidenciais não servirem para escolher governos, os eleitores usam-nas muitas vezes para enviar mensagens políticas. E a mensagem deste fim de semana foi clara, o apoio partidário, por si só, já não garante vitórias, e o eleitorado está mais atento, mais crítico e menos previsível.
Para um bom entendedor, meia palavra basta, a esquerda cada vez está mais fragilizada.

Bom fim de semana!

Augusto Bandeira

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