Opinião

Passageiros transitórios

A saúde é tão efémera. Estarmos aqui, em forma, mais ou menos contentes a ler um livro, é tão transitório.

José Luís Peixoto

Fui visitar-te na cama de uma unidade de cuidados continuados. Haviam-me preparado e, por isso, não foi surpresa ver-te paralisado de um lado, sem um dedo, sequer, poderes mexer! Mas o teu rosto moreno, outrora belo e anguloso, que seduzia as miúdas todas do teu bairro, tornou-se redondo de inchaço. O que mais me doeu foi o teu olhar, triste e sem brilho, a fitar um futuro que já não terás. Foi quanto bastou para começarem a emergir memórias de um passado tão curto para ti.

A tua mãe casara há pouco com o meu tio. Grávida de ti, concorreu para uma escola do interior. Colocaram-na numa povoação chamada Chila. Nós vivêramos sempre na cidade, onde as palmeiras desempenhavam pouco mais do que um papel de árvores decorativas de jardins privados e públicos. Na praia, eram as casuarinas de troncos robustos que buscavam na areia as profundezas do chão. Dois morros dividiam a cidade entre norte e sul: num, a capela de Nª Srª da Graça e, no outro, o de Nª Srª dos Navegantes. Entre ambos, da cidade sobrava apenas terreno seco e árido. À nossa volta, com exceção das hortas e bananais do rio Cavaco, a paisagem era estéril. Por isso, a ida dos tios representava para mim a oportunidade de conhecer outra África: escangalhar o corpo nas viagens por picadas no meio de florestas frondosas, fazendas de sisal, capim alto, morros de salalé, cubatas semeadas pela paisagem, até chegarmos a um povoado de poucas almas. Levou-nos (a mim e a alguns irmãos) o meu namorado – com quem casaria no ano seguinte – e que viria a ser o pai dos meus filhos.

Devia ser fim-de-semana porque dormimos na sala de aulas em camas improvisadas. Depois do jantar, e de forma absolutamente imprevista, ouvimos gemidos na casa de banho, que depressa passaram a gritos de quem entrara em trabalho de parto. Havia chegado a hora do teu nascimento! O teu pai viveu a aflição de ter de levar a tua mãe a um lugar onde pudesse contar com alguma ajuda médica. O mais próximo era o Bocoio, já com estatuto de vila e município. Foi lá que nasceste, a 17 de Maio de 1966, dia da cidade de Benguela.

Os teus pais convidaram-me para madrinha e eu senti um orgulho enorme por ter sido escolhida. Foste o meu primeiro afilhado, mas nunca houve  oportunidade de te confessar o carinho especial que sempre tive por ti, apesar de as diferentes geografias, por onde nos movemos, terem permitido que nos encontrássemos algumas vezes.

Despedi-me de ti e, quando já estava de saída, voltei atrás. Quis dar-te mais um afago e outro beijo. Olhando-te nos olhos, disse-te na mais descarada mentira: “Quando cá voltar, quero ver-te melhor”. Tu respondeste: “E eu quero que me tragas a tarte que me levaste da última vez”. Pensei que fora um momento de delírio, pois não me lembrava de tarte nenhuma. Mas tu insististe: “A tarte de nougat!”. 

Quando muito, poderia ter sido uma tarte de amêndoa, mas de nougat?  – interrogava-me.

Já na sala de espera, pedi ao meu filho que fosse a uma superfície comercial comprar uma. Ele conseguiu trazer-ma e, quando olhei para a etiqueta, estava escrito: “tarte de nougat, amêndoa”. Afinal, estavas certo! Levei-ta como quem satisfaz o último desejo de um condenado.

Apesar das duas tentativas cirúrgicas, continuas sem melhoras, porque não foi possível dar ordem de despejo ao tumor que te escolheu como morada, e teima em manter-se teu inquilino. 

Quando em breve partires, mesmo que eu, contente, esteja a ler um livro ou a pensar na transitoriedade da vida, vou sempre lembrar-te pela fugaz felicidade que um dia uma tarte te deu.

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