Opinião

Movimento Pendular

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado,
porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana.

Marguerite Yourcenar

“Antes que a memória se apague – crónicas de Água de Pau”, foi já apresentado, com casa cheia, no auditório do agrupamento de Escolas de Água de Pau, terra do autor, no dia 29 de março passado. Hoje, deste lado do mar, encontramo-nos no acolhedor ambiente do restaurante Cotali Mar, em New Bedford, perante uma outra plateia igualmente sequiosa de conhecer o conteúdo do livro. Alguns já o leram, porque após a primeira apresentação, o facebook do Roberto parecia uma casa de leilões: um pedia um exemplar, outro pedia dois e até três, subindo a parada conforme o interesse e as ofertas que cada um pretendia fazer a amigos e familiares ali retratados.

As redes sociais encarregaram-se de amplamente divulgar o que nessa tarde fora dito, já que não faltaram fotos e vídeos espalhados pelas mais diversas plataformas. Não posso, por isso, repetir-me. Mas há razões bem mais importantes para o não fazer. Uma coisa é falar para uma plateia de patrícios que vive na mesma terra e na mesma ilha, outra, é fazê-lo na geografia de uma outra – a décima (como se generalizou designar) – que não obedece à definição que os compêndios lhe dão, porque é feita da memória de gente das duas margens, que tanto separam como unem.  

“De um porto parte-se e torna-se, de outro chega-se e parte-se, apenas o mar vê sempre o mesmo, homens a ir” – escreveu Nuno Camarneiro em “No meu peito não cabem pássaros”. E nos vossos, o que cabe? Não preciso de vos perguntar! Eu já passei pelo mesmo e tenho a certeza de que está todo preenchido pelo corpo da vossa ilha arrancada ao mar, onde “habita o sossego dos deuses/ e a dor das partidas definitivas”, para usar as palavras de Gabriela Silva. Nem todas as partidas são definitivas, mas tenho a certeza de que, uma vez saídos do espaço-berço, se fica condenado a viver no Cá e Lá de outros espaços e muitas memórias. Se José Saramago nos lembra que “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”, Onésimo Teotónio Almeida, tão conhecido entre vós e também ele pertença desta grande família, garante que “De certo modo, podemos dizer que a mente do emigrante adulto não emigra. Passa apenas a viver fisicamente noutro lugar”.

Por muito que a maioria de vós, se sinta bem nestas américas de abundâncias, o vosso lugar continua a ser do tamanho da casa que vos viu nascer e a que sempre regressam, fisicamente ou pelo imaginário coletivo, apesar de todos os outros lugares que lhe foram acrescentando.

Ler este livro é embarcar numa dessas viagens ao nosso mundo interior, eterno porto de abrigo, que nos leva ao cais dos amigos e das brincadeiras de infância, às lendas e “causos” em que todos, na idade da inocência, acreditavam, a revisitar ruas e casas habitadas por gente que conheceram ou de quem ouviram falar, repetir expressões há muito esquecidas, recordar aromas e sabores familiares, que só ali se conseguem sentir na plenitude de ser ilhéu.

Marcolino Candeias, poeta que há bem pouco nos deixou, no seu “Quadro Tonto”, escreveu “(…) não sei se o mundo pára/ ou se anda mais depressa”. Seja qual for a velocidade do movimento de rotação da terra, de uma coisa estou certa: o vosso será sempre um movimento pendular entre as duas margens.

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