Luís Barreira

Portugueses. Do espanto ao medo!…

Nestes últimos dias a opinião pública portuguesa divide-se entre o espanto perante a audição parlamentar dos grandes devedores do antigo BES (atual Novo Banco) e o medo do retrocesso do desconfinamento na região de Lisboa e Vale do Tejo (senão em todo o país) face ao agravamento dos casos de Covid-19.

Cansados de pagar a desregulação e as falências de vários bancos portugueses e vir a saber que o erário público vai ter de garantir este ano o pagamento de vários milhões de euros (470 milhões) ao Novo Banco, para cobrir perdas com ativos ‘tóxicos’ herdados do BES e restaurar (??) a solidez bancária do mesmo, em nome da saúde do nosso sistema financeiro, levou os portugueses a estarem atentos à audição dos grandes devedores deste banco e às razões invocadas por eles para terem faltado ao pagamento das suas dívidas.

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Créditos: Maksym Kaharlytskyi

Três anos após a venda do banco à Lone Star e segundo um relatório recente, desde 2017 o Fundo de Resolução (fundo constituído por todos os bancos do nosso sistema bancário) já meteu 2.976 milhões de euros no NB, dos quais 2.130 milhões vindos de empréstimos do Tesouro que, como o fundo não tem dinheiro suficiente, todos os anos pede dinheiro emprestado ao Estado (nós), que devolverá em 30 anos (??). No total e até ao momento (sem contar a injeção que fará este ano), os custos do Fundo de Resolução com o Novo Banco já totalizam 7.876 milhões de euros (4.900 milhões de euros da capitalização inicial, em 2014 e 2.976 milhões ao abrigo do mecanismo contingente desde 2017). Isto sem somar ainda as indemnizações por processos em tribunal, pagamentos a credores do BES, garantias a lesados, entre outros.

Se tivermos em consideração que (segundo disse há muito o nosso primeiro-ministro) que a opção da nacionalização do banco foi “bem” estudada, mas não aceite porque implicaria encargos de até 4,7 mil milhões de euros e que a venda de 75% do Novo Banco fez-se sem a Lone Star pagar qualquer preço, não sendo eu um fervoroso adepto das nacionalizações dos bancos, parece-me que a nacionalização do NB nos traria, pelo menos, menos custos.

O que também nos espantou recentemente foi o facto do NB ter decidido atribuir prémios no valor total de 1,86 milhões de euros à sua equipa de gestão, pelo seu desempenho em 2020, ano em que o banco encerrou o balanço com um prejuízo de 1.329 milhões de euros. Situação que obteve um redondo não por parte do executivo, embora a atitude da gestão deste banco me mereça um adjetivo que não ouso aqui dizer!… Para culminar o nosso espanto, foi ouvir os grandes devedores deste banco, em resposta às questões colocadas pelos nossos parlamentares, que a culpa das suas dívidas eram: do próprio banco, que não lhes ofereciam condições para as diminuir, antes lhes propunham reestruturá-la com mais empréstimos; que pessoalmente não deviam nada, porque os empréstimos tinham sido feitos às suas empresas que faliram; que o banco não os chamava para discutir a situação; que não dispunham de meios económicos para saldar a dívida, etc., etc.

Conclusão: todos “chutam para fora” e a culpa parece acabar por “morrer solteira”!

Uma situação que está a provocar um receio generalizado nas populações é o aumento dos parâmetros de transmissibilidade e de incidência, conduzindo o célebre Rt (Índice de Transmissibilidade) a atingir o valor de 1,06 em todo o território, quando era de 1,03 no último balanço. A incidência subiu para 55,6 e 52,5 casos por 100 mil habitantes a nível nacional e continental, respetivamente, quando anteriormente esses valores estavam em 49,5 e 52,6.

Até ao momento em que redijo estas linhas, o total de vítimas mortais por Covid em Portugal ascende a 8.939 homens e 8.079 mulheres e o maior número de óbitos continua a concentrar-se nos idosos com mais de 80 anos, seguidos da faixa etária entre os 70 e os 79 anos.

Apesar do notável avanço na vacinação que, segundo a DGS, Portugal tem agora 4.941.964 pessoas vacinadas contra a covid-19, das quais 1.528.496 já estão imunizadas com as duas doses, várias regiões do país têm aumentado o número de infeções, como é o caso da região de Lisboa e Vale do Tejo onde, nas últimas horas foram notificados mais 97 casos de infeção, contabilizando-se até agora 319.446 casos e 7.211 mortos.

A subida destes valores negativos da doença, nomeadamente entre as populações mais jovens, é justificada pela não utilização dos meios e processos de proteção, em consequência da vulgarização proporcionada pelo atual desconfinamento e, pelas mesmas razões, parece ter sido ocasionada pelas comemorações da vitória do Sporting Clube de Portugal no campeonato nacional de futebol, em que, através das televisões, foi visível a euforia dos adeptos colados em grupos de centenas de pessoas, onde uma grande parte prescindia das máscaras de proteção para poder gritar bem alto pelo nome do seu clube. Se bem que, até agora, apenas foram provados algumas dezenas de casos contraídos durante os festejos, há que aguardar mais uns dias para avaliar todas as consequências.

Seria penoso vir a atribuir a uma justificada comemoração, mas completamente desorganizada no âmbito da proteção face à pandemia e à segurança pública dos seus intervenientes, a culpa da derrapagem nos casos de infeção e as suas inevitáveis consequências no retomar das atividades económicas nacionais.

Houve motivos para festejar? Sim! Houve motivos para condenar a organização? Muitos!

Conclusão: nem todos estamos conscientes de que, apesar da relativa liberdade em que nos encontramos atualmente, o vírus da Covid 19 ainda está por cá e continua a matar!

 

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