Luís Barreira

Portugal à beira de um novo abismo!…

Portugal à beira de um novo abismo-portugal-mileniostadium
JN/MS

Desde há muito que sabemos que a sociedade portuguesa sempre produziu assincronismos de toda a natureza, diferenças abismais entre si e entre si e os outros, que regularmente afetam a nossa sociedade humana desde os seus primórdios, tornando-a numa mistura sensorial contraditória, entre: a complacência, perdulária, queixosa e o seu oposto: vitoriosa, vaidosa, presunçosa.

Se bem que poderia demonstrá-lo por uma série de episódios históricos de relevo e muitos outros por motivos fúteis, interessa-me hoje falar da situação em que hoje nos encontramos, em consequência da epidemia Covid que atualmente nos afeta e nos fez entrar num desesperado plano inclinado, enviando milhares de concidadãos para as camas dos hospitais ou para a morgue.

Em pleno confinamento vos falo, imposto à meia-dúzia de dias e já corrigido com mais medidas restritivas, para vos dar conta da tristeza e preocupação que invade os sentimentos da maioria de um povo responsável, perante a gravidade da situação em que nos encontramos.

Os nossos hospitais, públicos e privados, face à multiplicação de casos de infeção pelo vírus e à necessidade de cuidados intensivos que necessitam, tendo em consideração as projeções dos epidemiologistas para um futuro de duas semanas, vão entrar rapidamente em rutura, situação em que muitos já se encontram! Mesmo a preparação de hospitais de campanha, um pouco por todo o lado, não vai conseguir suster a evolução atual da epidemia, para além das enormes dificuldades em conseguir recrutar o pessoal médico, enfermeiros, técnicos e auxiliares, em consequência da sua inexistência.

Choca-nos: ver filas de ambulâncias à porta dos hospitais aguardando que uma cama fique livre para depositarem o seu doente; ver doentes em estado grave do distrito de Setúbal serem transportados para hospitais da cidade do Porto onde aparece uma cama vaga; ver os médicos e enfermeiros cansados e obrigados a uma enorme introspeção moral, face aos escassos recursos humanos e materiais, quando têm de decidir quem se pode salvar e a quem já nada podem fazer.

Assim, Portugal e o seu povo, de tão elogiado internacionalmente pelo sucesso do seu comportamento durante a primeira vaga desta epidemia, em março/abril de 2020, passou a ser o segundo país no mundo e o primeiro na Europa com a média mais alta de novos casos de Covid-19 e mortes por um milhão de habitantes.

É triste, muito triste passar de “bestial a besta”! Não porque a estatística nos comova, mas porque ela se refere a vidas humanas, a famílias destruídas e ao aumento da miséria que esta peste está a produzir. Falta de planeamento das necessidades para combater esta epidemia? Não! Desde sempre e nomeadamente desde que este vírus se instalou em Portugal e apesar da ignorância sobre a sua conduta, planos não faltaram, nem faltam.

Erros de planeamento? Sim! Após a “vitória” na primeira vaga passámos à condição de “vencedores” e decidimos aliviar as restrições no verão, no Natal, etc. Enquanto outros países continuaram a restringir muitas das suas atividades.

De quem é a culpa? De todos, mas em diferentes graduações: o Governo, pela responsabilidade da sua posição, titubeando entre o colapso económico provocado pelos confinamentos sociais e a disseminação das infeções, acabou tentando subsidiar as perdas dos trabalhadores e das empresas, não satisfazendo nem uns nem outros, dando origem a um recrudescimento da propagação do vírus, por falta de efetivas medidas restritivas; a maioria dos partidos políticos da oposição, em pleno período eleitoral e com os seus candidatos ao lugar presidencial, iam “calando-se” ou consentindo as medidas adotadas pelo Governo, para virem mais tarde à sua condenação pelo efeito perverso provocado por essas medidas restritivas, “porque levavam à falência as empresas”, “porque foram pouco restritivas para refrear a evolução da epidemia” ou “porque denunciavam a incapacidade governamental em aplicar as melhores medidas”.

Mas há ainda um último reduto de culpados versus assassinos! Os idiotas que andam pelas ruas sem máscaras e sem qualquer proteção contra os ajuntamentos, depois de centenas de apelos para o não fazerem; os “negacionistas” que são contra o uso de proteções contra o vírus, negando as evidências científicas e os egoístas, que se estão borrifando para a saúde dos seus e a de todos os outros.

Entre “preso por ter cão e preso por não o ter”, eis-nos chegados à atual situação, com o Governo português a aplicar mais um confinamento, entre apelos dramáticos à população para ficar confinada em casa, decretando pesadas multas para quem não obedecer às imposições decretadas (que por falta de controlo ou benevolência policial raramente são aplicadas…) e com uma disposição especial: as escolas não fecham e, naturalmente, as aulas são presenciais porque, segundo o Governo, fechar as escolas prejudica muito os alunos com mais dificuldades económicas.

Sem colocar em causa a razoabilidade deste argumento, nomeadamente porque muitos alunos não dispõem de computadores nem de condições para estudar em casa, já não me parece compreensível colocar esta questão fora do contexto da dramática situação de saúde pública em que nos encontramos e que deve subordinar todas as outras situações, com inevitáveis prejuízos específicos, nomeadamente agora que sabemos que a média de idades dos alunos do ensino Secundário e do Superior, sendo mais resistentes aos efeitos da Covid está em franca progressão ao nível do contágio a outros.

Não, não me parece que fiquemos por este confinamento! Guardo a secreta esperança que, após as eleições do próximo 24 de janeiro, os políticos, face à gravidade da situação epidemiológica e ao colapso dos nossos serviços de saúde, parem de esgrimir por algum tempo as suas convicções ideológicas e outras e se unam num combate decisivo ao nosso inimigo comum: a Covid-19.

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