Luís Barreira

Os nossos maus comportamentos!

Quando na passada semana e a propósito de um pequeno bando de oportunistas que, ludibriando as regras impostas para a vacinação contra a Covid-19 fizeram-se vacinar, não se encontrando entre os cidadãos considerados prioritários, não dei muita importância ao assunto pelo número restrito de chico-espertos que o tinham feito, face à normal realização do programa de vacinação que estava a decorrer.

Qual não foi o meu espanto quando, dois dias depois, a imprensa dava conta que mais de três centenas de pessoas, muitas delas com responsabilidades sociais e sanitárias, tinham utilizado esquemas semelhantes para se fazerem vacinar, ultrapassando aqueles com direito a fazê-lo.

 

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Crédito: DR.

 

A revolta e o desprezo por tais comportamentos despidos de ética e honestidade e o clamor de críticas à falta de controlo da vacinação, em relação aos responsáveis da DGS (Direção Geral da Saúde), foi de tal ordem, que conduziu à demissão do coordenador da “Task Force” (entidade que superentendia a distribuição das vacinas) que, ao mesmo tempo, era o Diretor do Hospital da Cruz Vermelha portuguesa, onde se tinham registado casos semelhantes. A substituí-lo ficou um oficial militar, julgado com melhores condições para executar esta tarefa.

Já não é, infelizmente, a primeira vez que me refiro à falta de escrúpulos de uma parte dos nossos concidadãos que apostam em desafiar as regras restritivas estabelecidas pelo Governo e pela DGS, no que diz respeito ao uso de máscaras protetoras na via pública, o cumprimento de todas as normas impostas ao confinamento das pessoas, o distanciamento social, o fecho programado dos estabelecimentos comerciais, o impedimento de deslocações entre concelhos sem motivo válido às restrições impostas e toda uma panóplia de determinações obrigatórias destinadas a salvaguardar a vida de todos nós, perante a eventual contaminação por este perigoso vírus.

Sempre afirmei que o papel das autoridades policiais, encarregadas de fazer cumprir estes dispositivos de segurança coletiva, não podia resumir-se à persuasão junto dos cidadãos (como andaram a fazer durante meses e perante a enorme publicitação mediática sobre as restrições em vigor, não justificando a ignorância das mesmas), mas deveria ser acompanhado por métodos de intimidação (pesadas multas, prisão, etc.) capazes de dissuadir os prevaricadores.

Pois bem, agora, considerando que estamos numa fase mais restritiva do Estado de Emergência, bem mais penalizadora das infrações, com polícias na rua, controlo de fronteiras e de testes obrigatórios para quem viaja, verificamos uma vez mais que não se podem ignorar todos aqueles que insistem em defraudar os esforços para conter esta epidemia.

Na segunda quinzena de janeiro último, as autoridades (PSP, GNR e SEF) realizaram mais de 15 mil ações de fiscalização, resultando em: mais de 100 pessoas detidas por crime de desobediência, 40 das quais por violação da obrigação de confinamento obrigatório e por incumprimento das medidas previstas no estado de emergência; 3.567 autos de contra-ordenação: por falta de uso de máscaras, por abertura indevida de estabelecimentos comerciais, venda proibida de bebidas alcoólicas, falta de realização de testes Covid, não suspensão de atividades agora proibidas, não aceitação do distanciamento social, não respeito pelo isolamento a que devem estar sujeitas pessoas infetadas e ao dever de recolhimento domiciliário e a todo um conjunto de outros incumprimentos. Nas fronteiras terrestres, 251 viaturas foram impedidas de circular por falta de motivo justificativo e nas fronteiras aéreas meia centena de pessoas não apresentavam testes válidos, sendo que 12 foram impedidas de viajar.

Estes dados divulgados pelo MAI (Ministério da Administração Interna), aos quais se devem juntar muitos outros que escaparam a este controlo mais apertado, são bem elucidativos da “bagunça” que deve ter existido, durante outras fases anteriores em que foi proclamado o Estado de Emergência, mas que as autoridades não estavam tão atentas e se limitavam ao aconselhamento dos faltosos.

Por estas e por outras razões, entre as quais a “mão leve” de restrições cedidas pelo Governo durante o Natal e Ano Novo, Portugal, à sua escala, veio a posicionar-se como o “campeão” mundial de mortes e infeções por Covid, com hospitais entupidos de doentes e a ter de recorrer à ajuda externa de profissionais sanitários de outros países.

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Atualmente, face a um confinamento mais duro e penalizador das transgressões, o país parece ter reduzido os contágios em cerca de 40% numa semana, embora a taxa de óbitos se mantenha muito elevada.

Se a atual situação de diminuição de casos se mantiver, se tivermos acesso à quantidade de vacinas necessárias e à sua justa inoculação, se elas se mostrarem eficazes no combate às quase quatro mil variantes que este vírus já assumiu, se os nossos recursos sanitários continuarem a aguentar a pressão a que têm estado sujeitos e se os comportamentos sociais e políticos sobre esta matéria forem os mais indicados, talvez o outono de 2021 nos permita ver a tal luz ao fundo do túnel, quanto ao estado de saúde dos portugueses.

No entanto, são demasiados “ses” e a intemporalidade da imunidade de grupo parece-me inatingível! Na melhor das hipóteses, nós e os outros, iremos ter de conviver no futuro com qualquer uma das formas do coronavírus, vacinando-nos anualmente contra a estirpe que nos irá incomodar, tal como fazemos hoje com a gripe.

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