Luís Barreira

O inferno dos impérios e o paraíso das papoilas!…

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Créditos: DR

A escassas horas da data definida para a saída de todas as tropas estrangeiras e dos afegãos que queiram abandonar o país (31.08.21), situação que, porventura e só por si (??), será tema para muitos comentários, é imprescindível conhecer um pouco melhor a complicada história do Afeganistão até à, igualmente complicada, saída das tropas dos EUA e seus aliados.

Mas que país é este, com cerca de 650.000 km2, uma população de 30 milhões de pessoas, encravado entre o Paquistão, o Irão, o Turquemenistão, o Uzbequistão, o Tajiquistão e a China, com uma economia muito pobre e dependente da ajuda externa e do comércio com os países vizinhos e uma agricultura incipiente mas que, em 2020, detinha 85% da produção global de ópio, com uma parte substancial da sua área agrícola dedicada ao cultivo da papoila e com uma grande parte da sua população sem habitação, água, eletricidade, assistência médica e falta de emprego?

Mas que país é este, origem de várias dinastias e habitado por várias etnias (pachtuns, tajiques, hazaras e uzbeques), com diferentes culturas, religiões, hábitos, tradições e línguas, palco de sangrentos conflitos de ocupação desde a Antiguidade, nomeadamente: Alexandre o Grande, Chandragupta Máuria,  Gêngis Cã, Grã-Bretanha, União Soviética e, mais recentemente, pelos Estados Unidos e Nato e cuja história política moderna data apenas do século XVIII (1709), com a ascensão dos patchuns ao poder?

Mas que país é este, sem recursos especiais próprios ativados economicamente, que sofreu o “apetite” de grandes impérios e conseguiu expulsá-los do seu território? Que causas intrínsecas estiveram nas invasões que sofreram? Em síntese e para apenas me referir à sua história mais recente, o seu valor consistiu em ser um território de passagem, (como já antes o era de migrantes), ou seja, a presença dos invasores tinha origem em causas externas ao próprio país!

O Império Britânico invadiu o Afeganistão em 1839, na expetativa de manter o controlo do subcontinente indiano, ameaçado pelo avanço do Império Russo no continente asiático. Foram expulsos em 1919!

A União Soviética invadiu o Afeganistão em 1979, procurando influenciar a região rica em petróleo do Golfo Pérsico, na sua disputa com os EUA.

Foram expulsos em 1989!

Os EUA e seus aliados invadiram o Afeganistão em 2001, (após terem ajudado os mujaidines afegãos, que mais tarde se tornariam talibãs, a combater as tropas soviéticas), logo após o 11 de Setembro com o ataque às Torres Gémeas e os atentados contra as suas embaixadas em África, matando Osama bin Laden – Al-Qaeda, que os talibãs no poder se recusavam a entregar.

Foram “expulsos” em 2021!

Naturalmente que muitos outros fatores influenciaram decisivamente estes e outros acontecimentos que mantiveram o Afeganistão em guerras permanentes durante tantos anos. Entre eles destaco as divisões étnicas e tribais entre os vários grupos existentes com identidades históricas e lealdades diferentes, como os pashtuns, no leste e sul do país, os hazara no centro e os turcomanos, uzbeques e tadjiques em todo o norte, tornando a unidade nacional, consentida por todos, muito difícil, assim como as diferentes interpretações religiosas do Corão, por parte dos grupos muçulmanos com apoio de países da região: os sunitas apoiados pelo Paquistão e financiados pela Arábia Saudita; o Irão em defesa da minoria xiita e a pressão do Governo indiano acusando os talibã de apoiar os separatistas muçulmanos na Caxemira, ou da Federação russa a acusar os talibã de apoiarem os separatistas muçulmanos da Chechénia e do Daguestão. Todo um conjunto de influências, justificando tantas alianças contraditórias e temporárias, que têm feito do Afeganistão um “ninho de vespas”!

Agora e sob a ameaça do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI), grupo extremista sunita que tem como alvo principal os muçulmanos que considera hereges, em particular os xiitas, e que está contra o acordo bilateral entre ex-Presidente Donald Trump e os talibãs sobre a retirada das tropas norte-americanas e estrangeiras concluído em fevereiro de 2020 em Doha (também apoiado pelo atual Presidente dos EUA), milhares de soldados americanos e seus aliados, tal como milhares de afegãos e respetivas famílias que ajudaram esses militares e que ainda se encontram no território, tentam desesperadamente sair do país, por avião ou pelas suas fronteiras terrestres, antes que os extremistas islâmicos, mais radicais ou mais “moderados” (enquanto não dominarem a totalidade da administração do território!…) os massacrem.

Um pormenor curioso e dramático desta fuga, no meio da trapalhada organizativa provocada pelos militares dos EUA e seus aliados, é que o futuro deste país vai passar, inevitavelmente, por acordos a estabelecer entre as administrações destes últimos e os talibãs. Porquê? Porque o futuro Governo talibã do Afeganistão precisa de fundos económicos para governar e sustentar as populações e os diversos grupos em presença contra possíveis revoltas. Se assim não for… ameaçará dar guarida a todo o tipo de “Al-Qaedas”, explorará os divergentes interesses entre a Rússia, os EUA, o Irão ou a China ou torna-se num Estado narcotraficante, com o seu “jardim de papoilas de ópio”, que já é uma das principais fontes de financiamento dos talibãs.

Affaire à suivre!

Luis Barreira/MS

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