Luís Barreira

Maus tempos! Será que ainda iremos a tempo?…

Há décadas que temos vindo a ser avisados para as inevitáveis alterações climáticas que nos afetarão catastroficamente no futuro e há décadas que olhamos sobranceiramente para alguns fenómenos climáticos excecionais, na expetativa que sejam apenas acontecimentos pontuais, os quais teremos muito tempo para corrigir, ou alimentando a ideia daquilo que nos é cientificamente apresentado como uma grave inevitabilidade futura, são conceções erradas dos peritos nesta matéria.

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Créditos: DR.

É numa acomodada indiferença ou com base num negacionismo idiota, que começamos a apercebermo-nos que o futuro… é já hoje! E, por razões que se prendem com o egoísmo das nossas sociedades modernas e os interesses económicos em causa, só começamos a chegar a esta conclusão quando as catástrofes se abatem sobre as nossas próprias cabeças, vitimando pessoas e bens que, nalguns casos, se consideravam bem defendidos contra estes fenómenos climáticos.

As chuvas diluvianas que, na passada semana, caíram sobre a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo e a Suíça, cujas cheias causaram já e até ao momento, cerca de 190 mortos e imensos prejuízos materiais, ou o intenso calor que desabou sobre a Rússia, a Sibéria, o noroeste dos EUA e o Canadá, cuja canícula chegou a ultrapassar os 50°C, provocando incêndios devastadores, com a consequente destruição de vidas, casas e da fauna local, não deixam dúvidas, nem mesmo às entidades governamentais, de que tudo isto se deve ao complexo sistema climático que está a afetar o planeta, provocado pela emissão de gases com efeito de estufa.

”Cheias e secas sempre houve”, diriam alguns, mas a diferença reside no facto de que, nos últimos 20 anos, estes eventos têm sido mais frequentes, mais localizados e mais intensos, segundo os estudiosos destes casos, acrescentando que a atmosfera está cada vez mais quente, a “água evapora mais e a atmosfera retém mais humidade”.

Não podemos mais continuar a ser indiferentes à poluição, às emanações dos gases de escape dos motores térmicos, à destruição das florestas e ao degelo das calotes polares, nomeadamente no Ártico cuja temperatura está a aquecer a um ritmo muito superior ao resto do planeta. Segundo um estudo da NASA, o ciclo da Lua e as alterações climáticas vão provocar inundações sem precedentes a partir de 2030 e a comunidade científica salienta que, em meados da próxima década, a Lua estará na fase de ciclo em que as marés são maiores e, em conjunto com a subida do nível da água do mar provocada pelas alterações climáticas, pode desencadear forte intensidade de fenómenos atípicos como as cheias.

Não é por acaso que a União Europeia acaba de propor um pacote de medidas onde se inclui: alcançar uma redução de pelo menos 55% de emissões de gases com efeito de estufa e a neutralidade climática em 2050, além da plantação de três mil milhões de árvores adicionais em toda a UE.

Também não é por acaso que, após esta recomendação da UE, que pretende anular a comercialização de veículos com blocos térmicos, incluindo os mistos (híbridos) até 2035, teve já a recusa por parte da França e da Alemanha, grandes fabricantes de veículos automóveis, que pretendem adiar esta solução. Se juntarmos a esta oposição todos os outros grandes fabricantes mundiais destes equipamentos, as grandes companhias petrolíferas, os países que vivem do comércio dos combustíveis fósseis, as grandes indústrias dos derivados do petróleo e o poder dos lobbies junto dos governos e da opinião pública, podemos ter uma ideia aproximada da dimensão do problema que temos de ultrapassar.

É bem verdade que, por muitos problemas que as alterações climáticas nos estejam a causar, não podemos atirar repentinamente para o lixo todos os resultados obtidos por uma revolução industrial com muitos anos, sob pena de criarmos problemas sociais inultrapassáveis, como desemprego maciço e revoltas, a todos os níveis, das sociedades em risco de perder o bem-estar alcançado até aqui pelo consumo dos combustíveis fósseis.

Também não é menos verdade que vociferar contra o atual estado das coisas, ao estilo de uma Greta Thunberg, embora sensibilizando uma nova mentalidade entre os mais jovens para as mudanças essenciais a empreender no planeta, não vai conseguir, só por si, alterar a urgência da situação.

Mas, se tivermos em consideração que, mesmo que consigamos parar agora mesmo a emissão de gases de efeito de estufa, as temperaturas continuarão a aumentar e os seus efeitos a não desaparecer completamente, porque “estamos a sofrer aquilo que aconteceu nos últimos cem anos”, temos obrigação de pressionar os poderes públicos nacionais e internacionais para a adopção enérgica de medidas que permitam a transferência sucessiva dos nossos recursos humanos e materiais, para uma nova era civilizacional do nosso desenvolvimento sustentável, permitindo a nossa sobrevivência num quadro de maior harmonia com o nosso planeta.

Uma parte importante das sociedades poluidoras do ambiente denominam-se democracias e as outras vendem-lhes a matéria-prima que envenena o planeta. Agindo sob as primeiras, através do escrutínio popular sobre os objetivos das suas formações políticas e em nome da salvação e felicidade das espécies, entre as quais a nossa, é um caminho não isento de escolhos e contrariedades, mas que, progressivamente, poderá conduzir-nos na direção certa.

Luis Barreira/MS

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