Luís Barreira

Marcelo, o grande ganhador!

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DR.

No passado domingo (24) realizou-se a eleição do próximo Presidente de Portugal.

Bem sei que tenho dedicado poucas linhas a este ato eleitoral de importância nacional mas, no contexto das maiores preocupações dos cidadãos portugueses, entre os quais saliento que, no mesmo domingo em que se realizaram as eleições, Portugal contabilizou mais 275 mortos (um novo máximo) e 11.721 infetados pela Covid-19, atingindo no dia em que esta crónica foi escrita um total de 10.469 vítimas mortais e 636.190 infeções, para além do contínuo aumento dos doentes internados, que colocam as instalações hospitalares e os seus sacrificados profissionais de saúde em estado de rutura. A minha inquietação fundamental esteve e está intimamente associada à saúde dos portugueses.

Para que este ato eleitoral se realizasse, o Estado de Emergência e o confinamento obrigatório foram suspensos nesse dia e os portugueses votaram, acima das expetativas abstencionistas, naquele que já era antecipadamente “uma carta fora do baralho” dos restantes candidatos, ou seja, reelegeram Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente e com uma confortável maioria de 60,7% dos votos.

Não havendo grandes surpresas quanto ao vencedor previsto desde há muito tempo, este ato eleitoral trouxe, no entanto, alguns “presentes envenenados” para a futura política portuguesa, agora a braços com:

• Um novo protagonista, André Ventura do partido Chega (ou Chega do partido André Ventura, tal é a personalização deste mini-Trump), que quer “rebentar com o atual sistema político português” sem um ideário que sustente as suas afirmações, para além das suas habituais atitudes provocatórias, mas que obteve um terceiro lugar com 11,9% dos votos;

• Um partido socialista que dividiu o seu eleitorado entre o apoio a Marcelo e a candidata Ana Gomes, que obteve um segundo lugar com 12,97% dos votos e que conduziu a sua campanha com um radicalismo “desbocado”, que lhe deve ter custado algum capital simpatia e o estatuto de “persona non grata” dentro do PS;

  O candidato do PCP, João Ferreira, quarto classificado com 4,32% dos votos que, agarrado à defesa do ‘livrinho” da Constituição portuguesa (tal como os seus inimigos históricos do Partido Comunista chinês, brandiam o “livro vermelho” de Mao Tsé Tung), não foi capaz de ultrapassar os seus magros resultados nesta eleição e perder todo o Alentejo (!?…) para a extrema-direita populista de André Ventura, deixando uma grande interrogação sobre a consistência do militantismo comunista do PCP;

• Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda e quinta classificada com 3,95% dos votos, que parece não ter deslocado o seu partido do anterior “divórcio” da “geringonça” do PS e da contestação ao Orçamento de Estado para 2021, recuando para mínimos históricos;

• O liberal Tiago Mayan, um recente “aprendiz de feiticeiro” que conseguiu um sexto lugar com 3,22% dos votos e que vai acentuando a lenta progressão do seu Partido Liberal, sem que, no entanto, possa convencer os portugueses da justiça das suas propostas;

  Finalmente o “não” candidato do partido RIR, Vitorino Silva, o calceteiro “Tino de Rans” com aspirações a profissional de eleições presidenciais (subsídios eleitorais do Estado ajudam…) que obteve 2,94% dos votos e já prometeu a sua presença nas próximas eleições!

Nestas circunstâncias, o significado e a importância deste ato eleitoral pouco ou nada valeu sobre a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, embora tenha valorizado o seu segundo mandato com a estrondosa vitória que alcançou, por ter conseguido ganhar em todos os concelhos de Portugal continental e ilhas, mas muito mais pela distribuição das forças políticas portuguesas em presença e pela leitura de alguns sobre os resultados, na forma e no estilo a que sempre nos habituaram (descurando a nossa inteligência…).

O CDS veio gritar a terreiro “Ganhámos” (???…), como tendo sido o único partido que apoiou Marcelo. Esta baboseira do jovem presidente do CDS, instantes após a eleição, deixou toda a gente estupefacta! Não só o CDS, pelas sucessivas estatísticas que têm sido realizadas, está em constante desaparecimento, pela deslocação do seu eleitorado mais conservador para as hostes da extrema-direita populista do Chega e outra parte para o PSD, como o seu peso eleitoral é tão diminuto que nada contou nesta eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.

Mas a nossa admiração não ficou por aqui. O próprio presidente do PSD, Rui Rio (com receio de que alguém acreditasse que a vitória de Marcelo se devia ao CDS…), apressou-se a declarar que o seu partido tinha ganho esta eleição (???) e, com ar de quem pode e deve aconselhar o Presidente eleito, “avisou-o” para passar a ser mais duro com o atual Governo!

Bem sei que todos participaram nestas eleições presidenciais a pensar nas próxima autárquicas e legislativas, mas “esqueceram-se” dos seus próprios resultados partidários (bem evidenciados) no inquérito de opinião realizado após estas eleições presidenciais e no facto de o Presidente eleito ter sido apoiado por uma maioria significativa do eleitorado socialista, além de muitos outros que a sua simpatia consegue granjear, é de uma falta de pudor aflitiva. O que é que estes destacados políticos não perceberam?

Não tardou por isso o “balde de água fria” lançado pelo Presidente, no final das eleições, repetindo: “não sou nem serei um Presidente de fação”!

No meio deste trágico cenário pandémico, numa situação económica e social a derrapar para um patamar insustentável, que só a ajuda externa pode minorar e um complexo palco político saído destas eleições, um futuro digno para o nosso país precisa, urgentemente, da capacidade e empenhamento ético de todos aqueles que acreditam nas ambições que o 25 de Abril de 1974 nos proporcionou e que o “novo” Presidente afirma interpretar.

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