Luís Barreira

Algumas interrogações sobre as eleições portuguesas!

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Créditos: JN

Os debates eleitorais televisivos, de cerca de meia hora para que cada um dos partidos políticos portugueses frente a cada um dos outros, para exporem as suas razões e propostas eleitorais, fórmula encontrada entre a comunicação social e as nossas organizações políticas para esclarecer o povo português das intenções de cada um, mais não têm conseguido do que proporcionar aos partidos em debate, dizer o que pensa dos outros, muito mais do que pensa de si próprio!

Na realidade e muito embora em campanha eleitoral a troca de acusações entre os políticos faça parte dos habituais confrontos de ideias, desta vez, talvez porque o tempo televisivo é curto, porque a comunicação social está mais interessada nas posturas acusatórias dos intervenientes para utilização mediática, ou porque considera que, no essencial, os eleitores já tudo sabem sobre o que cada partido propõe, o tempo destinado ao debate é largamente superado pelo espaço destinado aos comentadores de toda a ordem que, no final de cada debate interpartidário, invadem os nossos écrans televisivos, tecendo considerações sobre quem ganhou ou perdeu o confronto político anterior. E essa classificação, muitas vezes na falta de uma argumentação sólida, baseada nos programas eleitorais dos respetivos candidatos (que poucos apresentam…), divaga sobre o estado nervoso ou a calma de cada um dos intervenientes, o seu tom de voz, a sua simpatia e a sua postura estética, deixando o espectador preso a detalhes acessórios, no juízo político que faz dos candidatos a eventuais futuros dirigentes.

Enfim, sinal dos tempos de um país a quem traçaram o apetite pelos Big Brothers e tornaram a política mais um meio de entretenimento.

Nas circunstâncias particulares destas eleições, em que todos os partidos concorrem individualmente e elegeram o Partido Socialista como o seu adversário principal, não se torna difícil encontrar nestes já “longos anos” da governação socialista e na sua história recente, motivos justos de acusação e insinuações perversas e ilegítimas a este partido, fazendo dele o “saco de boxe” de todos os outros, sobrestimando os erros cometidos e subestimando os efeitos nefastos da pandemia na nossa economia e, por consequência, na eventual possível correção de alguns desses motivos de crítica.

Associando as suas prestações na campanha eleitoral aos resultados obtidos nos inquéritos públicos que têm vindo a ser produzidos, os partidos corrigem as suas posições de forma a serem mais atrativos para o eleitorado, ao mesmo tempo que tentam “roubar” posições ao seu principal adversário, o Partido Socialista e evitar a transferência dos seus considerados votos normais, para os partidos ideologicamente mais próximos do seu.

Nesta “guerra democrática” não se tem estranhado o comportamento dos líderes partidários, face àqueles que mais ameaçam ganhar os seus eleitores habituais, como o CDS, t al como o PSD, em relação à Iniciativa Liberal (IL) ou ao CHEGA e, no sentido inverso, entre o PCP e o BE, provocando o gáudio de uns e a preocupação de outros, em consequência dos resultados obtidos nas sondagens, onde a quantidade de indecisos mantém a esperança para todos.

Penso, no entanto, que nem as sondagens ou as “arruadas partidárias” permitirão tirar conclusões de quem vai vencer estas eleições ou das posições que cada partido vai obter no espetro político da Assembleia da República e isto porque, tudo o que se disser a este respeito, vai esbarrar com uma grande incógnita que limita todas as projeções virtuais: a abstenção! E esse comportamento dos eleitores, para além do rol das razões particulares que os motivam, está muito ligado à evolução das infeções por Covid-19 que, em Portugal tal como na maior parte dos países do mundo, não pára de aumentar, criando um justo receio das infeções que possam vir a acontecer-lhes nas habituais filas que se aglomeram nos locais de voto.

Para além disso e por motivos legais e constitucionais, que se prendem com o direito de voto de pessoas em isolamento profilático (sem esquecer que a Assembleia da República está dissolvida e, por esse motivo, impedida de alterar as leis que normalizam esta matéria), à hora que vos escrevo ainda não foi resolvido este imbróglio jurídico e sanitário, embora os partidos políticos mantenham conversações sobre este assunto.

Por todas estas razões, acumuladas ao aumento das abstenções que se tem verificado nas eleições portuguesas e que afeta os que agora respondem às sondagens, como todos os outros, a abstenção vai decidir quem ganha e quem perde nas próximas eleições legislativas de 30 de janeiro. Na pior das circunstâncias, pode ganhar quem vencer pela maioria dos eleitores portugueses que votarem e que poderão ser uma minoria face ao total de eleitores recenseados, o que não deixa de ser caricato, mas possível!

Num momento em que a sociedade portuguesa em geral e as administrações públicas em particular, inventam e reinventam sistemas de simplificação digitais, que permitam um manuseamento mais fácil e rápido por parte dos cidadãos e do Estado, as novas tecnologias ainda não chegaram ao voto eletrónico, que permitiriam um rápido acesso à prática deste ato cívico. Se tal se mostra difícil, face à pirataria eletrónica e ao aproveitamento dos dados dos eleitores para uso indevido, o melhor seria optarmos pelo atual sistema tradicional, mas com voto obrigatório e presencial para os residentes no país, tal como acontece com vários países do mundo, entre os quais muitos europeus. Adivinho, no entanto, que nessa altura alguém venha a mostrar-se contrariado por lhe “cercearem a sua liberdade individual” de votar ou não, mas não deixo de considerar que tal sistema tornaria mais expressivo o resultado eleitoral dos partidos políticos, para além de obrigarem os nossos cidadãos a um maior interesse pela política nacional.

Luis Barreira/MS

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