Luís Barreira

A “mesa do lado”!

 

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Sem deixar de ter um olhar sobre tudo o que nos rodeia e, sobretudo, o que mais nos afeta na generalidade, a crónica de hoje é mais intimista, mais associada à minha própria experiência privada e preocupação pessoal.

Em virtude da minha esposa, a pessoa mais previdente deste mundo, ter contraído a Covid (Portugal com 95 943 casos e 239 mortes por covid-19 entre 14 e 20 de junho), fui forçado a ir almoçar a um restaurante médio, perto de mim e, embora deteste comer sozinho (entre outras coisas…), entretive-me a escutar as conversas dos grupos que almoçavam perto de mim, disfarçando a minha atenção com uns golos de uma “zurrapa” de vinho que me tinham servido.

Eram dois casais que, pelos cabelos brancos que exibiam os homens, não deveriam estar muito longe da minha idade (pensava eu…), cujas conversas eram entre as férias de uns e a perspetiva de outros, no Dubai e nas Filipinas e as aventuras sobre as ondas “horizontais” e interminavelmente “encaracoladas” (que eu ingenuamente tenho alguma dificuldade em perceber…), ótimas para as aventuras de surf, nomeadamente com a água a perto dos 30°. Como estava só e atento, não me foi difícil ouvir o preço exorbitante que cada um pagava por essas viagens e dei conta do que estavam a comer: duas doses para três de peixe de “aquário” (que é o mais barato) e cerveja, que é mais económica do que o vinho!

Interroguei-me sobre o estatuto financeiro destes amigos do surf e respetivas famílias, ao mesmo tempo que os comparava com a minha situação etária e económica.

Porventura comiam pouco, por razões que se prendiam com a manutenção do físico, mas não deixavam de tecer os mais variados elogios às “comezainas” que tinham desfrutado “lá fora”! No entanto, as mulheres do grupo (num despique entre pares), perante a insistência dos homens em voltar a esses lugares “maravilhosos”, iam recordando que esses locais (por muito bonitos que eram) já os tinham visitado e queriam viajar para locais diferentes, que não fossem tão acessíveis às pessoas que conhecem (“toda a gente vai para aí!”…).

Visualizei o esquema social em que se tentavam inserir, não sem antes assistir a uma conversa, entre os dois grupos familiares, sobre a sua última compra “excecional” de um Mercedes de ocasião, bem como um BMW com poucos quilómetros (pagos a prestações…)!

Em primeiro lugar concluí que, embora os homens tivessem mais cabelos brancos do que eu, não poderiam ter a minha idade, face ao desporto favorito que exibiam. Eventualmente, o que os cabelos brancos refletiam, eram as suas preocupações em pagar atempadamente as prestações dos veículos, das casas e das aspirações das suas respetivas mulheres. Ou será que se pode viver assim sem chatices?

Estes “companheiros” (da mesa do lado…) não fazem regra entre toda a população portuguesa, mas existem e cada vez mais!

A minha geração foi habituada a poupar “para o que der e vier” e evitar despesas que possam causar danos na estabilidade económica da família, mesmo que isso nos possa fazer vir a parecer “ignorantes” face ao resto do mundo, tendo em consideração o despesismo feito por algumas camadas da população portuguesa, em viagens ao estrangeiro para manter o seu “status social”, perante a vizinhança.

“Portugal é lindo”, dizem os marchantes dos Santos Populares e aqui encontramos um país que pode rivalizar em beleza e variedade com muitos dos países do mundo e que é muito apreciado pelos estrangeiros que nos visitam, muitos deles já cansados do que viram noutras paragens.

É “moda” ir de férias para o estrangeiro para manter o “status” quando, na maior parte das vezes, se ignora o que Portugal tem para oferecer e se entra em “default” na economia familiar, levando muitas vezes, por estes motivos supérfluos, à pobreza mal disfarçada, à contestação grevista e a protestos contra os baixos salários.
Naturalmente que há quem o possa fazer sem correr esses riscos. Mas, a quem me dirijo, são todos aqueles que, pelo facto de possuírem um cartão de crédito e um carro topo de gama (pago aos “bochechos”), já se sentem no último degrau do elevador social, fazendo despesas que não estão aptos a pagar e (muitas vezes…) prescindindo dos bens essenciais.

Não sou um exímio aforrador! Já viajei pelo estrangeiro e fiz despesas das quais não me orgulho, mas nunca por essa razão (que eu me tivesse apercebido) coloquei em causa os interesses económicos familiares.

O que se passa agora com a chamada “classe média” (??) portuguesa, é a ilusão de que os seus rendimentos não baixam, antes aumentam. E isso, na atual situação internacional, é um prognóstico que dificilmente se pode antever a longo termo, pese embora o otimismo do nosso primeiro-ministro a curto prazo.

Considero que os mais jovens do que eu têm todo o direito a ter as suas ambições e pretensões a vários níveis. E eles, enquanto uma geração diferente da minha e associada a um mundo com poucas fronteiras, têm a obrigação de lutar pelos seus interesses, não desprezando as consequências dos seus gestos e a sua capacidade de preservar o que é fundamental para a sua vida futura.
Mas… por favor, gozem a vida sem a hipotecar!

Luis Barreira/MS

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