Daniel BastosOpinião

Manuel Eduardo Vieira e a Ordem do Infante D. Henrique

Um rosto maior da diáspora portuguesa na América

A comunidade portuguesa nos Estados Unidos da América consolidou-se entre o primeiro quartel do século XIX e o último do século XX, período em que cerca de meio milhão de portugueses, sobretudo oriundos dos Açores e da Madeira, emigraram para aquele país. Hoje plenamente integrada, esta comunidade distingue-se pelo seu espírito empreendedor e pelo relevante papel económico, social e político que desempenha na principal potência mundial.

De acordo com os dados mais recentes dos censos norte-americanos, vivem atualmente nos EUA mais de um milhão de portugueses e luso-americanos. No seio desta vasta diáspora, multiplicam-se percursos de vida que materializam o chamado American dream: histórias de ascensão social construídas com trabalho árduo, mérito e resiliência. Entre essas trajetórias, destaca-se de forma particularmente exemplar a do comendador Manuel Eduardo Vieira, reconhecido como o maior produtor mundial de batata-doce biológica e uma das figuras mais marcantes da comunidade portuguesa na Califórnia.

Natural da Silveira, na ilha do Pico, Manuel Eduardo Vieira emigrou aos 17 anos, em 1962, num contexto marcado pelo início da Guerra do Ultramar. Proveniente de uma família humilde, partiu inicialmente para o Rio de Janeiro, onde, acolhido por um tio, pôde prosseguir estudos para além da 4.ª classe. Durante cerca de uma década no Brasil, formou-se nas áreas da Contabilidade e da Gestão, adquiriu experiência profissional, conheceu a futura esposa, Laurinda, natural de Chaves, e ali nasceram os seus três filhos.

No início da década de 1970, mudou-se para os Estados Unidos, juntando-se aos pais e ao irmão na Califórnia, onde iniciou atividade agrícola no Vale de São Joaquim, numa empresa familiar. O esforço persistente — conciliando o trabalho no campo com o estudo noturno da língua inglesa — foi determinante para a consolidação do seu percurso. Um momento decisivo ocorreu em 1977, quando adquiriu a empresa A.V. Thomas Produce, então dedicada à produção de batata-doce em cerca de 20 hectares.

Com visão estratégica e capacidade de inovação, Manuel Eduardo Vieira relançou a empresa, introduzindo práticas pioneiras, como a certificação de produção biológica em 1988 e, mais recentemente, a batata-doce em embalagem individual, pronta a ir ao micro-ondas. Paralelamente, expandiu a exploração agrícola para mais de 1200 hectares. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, a empresa tornou-se a maior produtora mundial de batata-doce biológica, com um volume de negócios superior a 50 milhões de euros e cerca de mil trabalhadores nas épocas de colheita. Na década de 1990, a cadeia Safeway distinguiu-o simbolicamente com a matrícula personalizada “King Yam”.

O seu percurso empresarial foi reconhecido em 2013, com a atribuição do prémio Lifetime Achievement nos Best Leader Awards EUA. Em 2011, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva já lhe havia concedido a Comenda da Ordem do Mérito. Apesar do sucesso alcançado, Manuel Eduardo Vieira mantém uma ligação profunda à terra natal, expressa numa intensa ação filantrópica. Em 2017, foi inaugurada uma estátua em sua homenagem na Silveira, sendo também o principal benemérito do Centro Social, Cultural e Recreativo local. O seu percurso valeu-lhe cerca de duas dezenas de distinções, incluindo a Chave de Ouro do Município das Lajes do Pico.

É neste quadro de mérito amplamente reconhecido que, no passado dia 6 de janeiro, Manuel Eduardo Vieira foi condecorado em Lisboa pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a Ordem do Infante D. Henrique, distinção destinada a reconhecer serviços relevantes prestados a Portugal, no país e no estrangeiro, bem como contributos para a projeção da cultura, da História e dos valores portugueses.

Na cerimónia realizada no Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, o Chefe de Estado enalteceu o percurso profissional do condecorado e a sua ação filantrópica junto da comunidade luso-americana e de Portugal, destacando-o como uma figura maior da comunidade portuguesa na Califórnia e um símbolo inequívoco do dinamismo, da capacidade de liderança e da força afirmativa da diáspora portuguesa, que continua a projetar e a dignificar Portugal além-fronteiras através do exemplo, do trabalho e da generosidade.

Cerimónia de condecoração do empresário e benemérito luso-americano, Comendador Manuel Eduardo Vieira, no Palácio de Belém, onde foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Créditos: Miguel Figueiredo Lopes / Presidência da República.

 

Daniel Bastos/MS

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