Uma viagem ao passado: Como as celebrações pascais eram bonitas

Meus caros leitores, estamos no fim de semana da celebração da Páscoa. Nem sei se posso chamar a este texto um artigo de opinião. Vou, isso sim, fazer uma viagem ao passado para dar a conhecer como eu vivia o fim de semana de Páscoa na minha freguesia, que ainda hoje se celebra mais ou menos da mesma forma. No entanto, com o passar do tempo, a relíquia que existia foi-se perdendo.
Falo de quando era muito jovem, ainda criança. Lembro-me como se fosse hoje, esperava pelo domingo de Páscoa com tanta ansiedade e alegria, só pelo facto de, nesse dia, o almoço ser diferente, ter um sabor especial.
Viajo até finais dos anos 60, quando tinha iniciado a escola primária. Na altura, o respeito e as tradições religiosas eram levados muito a sério. Na Quaresma não havia carne para ninguém, embora, na verdade, quase nunca houvesse, mas aproveitava-se esse tempo como desculpa.
Eu logo notava que a Páscoa se aproximava. Primeiro, porque recebia, pelo menos, uma peça de roupa nova; com sorte, até podia estrear uns sapatos, isto se o irmão mais velho já tivesse gastado os dele. Era tudo passado de irmão para irmão. Os sapateiros, nesses tempos, tinham muito trabalho.
Depois, havia a tradição dos padrinhos darem o folar aos afilhados. Do meu padrinho, poucas lembranças tenho, enviava, de vez em quando, uma nota de vinte escudos, que não era para mim, mas sim para ajudar nas despesas da casa. Já a minha madrinha, com poucas posses, lá trazia, umas vezes meia dúzia, outras vezes uma dúzia de ovos pintados e uma carcaça, que chamávamos de “petim”. Que alegria quando a via chegar com o cesto a casa dos meus pais, aquilo era tudo para mim.
Na véspera, as donas de casa faziam uma limpeza a fundo. As crianças enchiam-se de alegria, porque no domingo as portas abriam-se a todos.
No domingo, era obrigatório ir à missa e ver as cruzes sair. Os foguetes anunciavam a saída, e durante o dia serviam de guia para sabermos por onde andava o compasso. Eu, contra as regras dos meus pais, saía de casa de manhã e só entrava para almoçar, houve anos em que nem isso.
Adorava entrar nas casas das outras pessoas. Naquele tempo, havia fartura do que se cultivava e isso permitia partilhar. Em quase todas as casas havia uma tigela de tremoços; em algumas, uns doces brancos que conhecíamos como “doces da Páscoa”. Que alegria ver aquelas mesas e ouvir: “Come, meu menino, podes comer.” E, muitas vezes, ainda nos enchiam os bolsos de amêndoas.
Corria-se muito atrás do padre, e eu sempre por perto, à espera de uma oportunidade para me encostar à mesa. Era um tempo bonito. A maior preocupação era garantir que não perdíamos a visita às casas dos familiares. Como havia dois compassos na freguesia, tínhamos de escolher bem qual acompanhar, para ter a certeza de passar pelos lugares onde viviam os avós e outros familiares.
Com o passar do tempo, foi-se perdendo a beleza do domingo de Páscoa. Hoje, já poucas casas abrem a porta ao compasso, e, pouco a pouco, vai-se perdendo aquilo que havia de mais bonito no tempo em que era criança.
Tinha aqui história para continuar, mas hoje foi mesmo uma viagem ao passado.
Termino desejando uma Feliz Páscoa a todos os leitores do jornal Milénio. E deixo também um recado: nunca pense que é melhor do que os outros. O respeito, o saber estar e compreender as diferenças fazem parte da cultura. Nunca valorize as pessoas apenas por interesse.
Deixo ainda um excerto de um poema de Paloma Andrade Pinheiro:
“Jamais veremos maior prova de amor:
Alguém, por nós, morrer na cruz.
Só Ele, o Mestre e Senhor,
Só Ele, Cristo Jesus.”
Bom fim de semana!
Augusto Bandeira/MS






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