Portugal em chamas Críticas não apagam fogos, soluções sim

Fogo, fogo e mais fogo. Parece estranho, mas, se olharmos para trás, percebemos que há zonas que, de dez em dez anos, são destruídas pelas chamas. Ninguém consegue descobrir o porquê… ou será que consegue? Depois de ouvir o jornalista José Gomes Ferreira comentar sobre os incêndios, começo a acreditar que, em Portugal, os fogos interessam e até “dão de comer” a muita gente. Pode ser engano meu, mas parece realmente existir uma verdadeira indústria dos incêndios.
Basta recuar aos anos 80: fogos florestais quase não se ouviam. E havia uma razão muito simples: os montes estavam limpos. Os animais pastavam, apanhava-se a lenha caída, recolhia-se o tojo para as cortes, aproveitava-se a giesta. Nada se desperdiçava. Havia guardas florestais, as pessoas cultivavam as suas terras, limpavam os matos e até quem não tinha terreno comprava o que precisava. O resultado era simples: não havia combustível acumulado.
Vieram as modernices e tudo mudou. Abandonaram-se os campos, desapareceram os animais nas cortes, o mato deixou de ter utilidade, e até os pinhais, antes considerados riqueza, perderam valor. Foi então que começaram a surgir os grandes fogos. Curiosamente, logo a seguir apareciam os madeireiros para “limpar” e fazer negócio com a madeira queimada. Assim, os incêndios passaram a ser vistos também como oportunidade de lucro. Não por acaso, a maior parte dos fogos concentra-se no centro e no norte, em zonas de terrenos abandonados, cobertos de erva seca — combustível perfeito — e com pinheiros de valor comercial.
O problema tende a agravar-se: as gerações mais velhas, que ainda conhecem os terrenos, estão a desaparecer, e as novas nem sabem onde ficam as propriedades, quanto mais limpá-las. Talvez, no futuro, o Estado tenha mesmo de assumir a gestão destas áreas. E, se for inteligente, deveria pôr os incendiários apanhados em flagrante a limpar as matas e os terrenos ao abandono.
Dias atrás ouvi o diretor da Proteção Civil afirmar que os fogos de verão não se apagam; controlam-se. E é isso que se tem visto: perante a quantidade de incêndios este ano, o número de tragédias tem sido relativamente baixo. Quando não há controlo, acontece o que vimos em 2017: uma catástrofe. Como dizem os especialistas, deixem trabalhar quem sabe. Porque “bombeiros de bancada” há muitos, e críticos ainda mais. Soluções é que quase nunca aparecem.
Um exemplo simples: colocar um governante ou presidente de câmara no terreno, a tentar mandar nos bombeiros, é tão absurdo como pedir a um bombeiro que faça uma cirurgia. Cada profissional no seu lugar. Em 2017, as conclusões dos especialistas foram claras: a presença de políticos atrapalhou a resposta operacional. Este ano repetiu-se a cena; um autarca, em vez de acalmar as populações, só baralhava o trabalho de quem estava no terreno, e qualquer coisa saía sem seriedade.
A oposição também devia refletir: em vez de criticar por criticar, que apresentem soluções, que colaborem a acalmar as populações. Críticas vazias não apagam incêndios. O que o país precisa é de prevenção, de controlo eficaz e de justiça pesada para quem ateia fogo.
E deixo um conselho prático: se tem terrenos sem cultivo, mande-os limpar. Está a proteger-se a si próprio e a ajudar os bombeiros.
Bom fim de semana!
Augusto Bandeira/MS


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