Aida Batista

Viver no presente

"Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho." - Fernando Pessoa

Já mais do que uma vez declarei não ser adepta da exposição pública da vida privada, embora respeite quem disso faça um passatempo. Sendo a liberdade um dos valores que mais prezo, entendo tanto os que precisam de alimentar o ego com aplausos e “likes”, bem como os que, como eu, fazem da reserva da intimidade a sua coutada e uma prática de vida. Não quero com isto dizer que sou avessa às redes sociais, muito pelo contrário; em tempos de pandemia, com o consequente isolamento a que o confinamento nos obriga, são elas que nos alimentam o espírito através das mais variadas iniciativas de carácter cultural ao alcance de um clique.

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Crédito: DR.

No entanto, e porque o plim das notificações me chegam ao telemóvel, sem que tenha de ir propositadamente ao Facebook de cada um dos amigos – nem teria tempo para tal -, vou acompanhando os seus percursos de vida repartidos pelas mais diversas geografias. Dado que vivi em Angola, muitos deles vieram para Portugal em 1975, quando se deu a descolonização. Notem que escrevi “vieram” em vez de “regressaram” ou “retornaram”, porque conheço bem a reação alérgica que estas palavras provocam aos que não se cansam de dizer, de forma muito perentória, que, tendo lá nascido, não regressaram nem retornaram a coisa nenhuma. Abro um parêntesis para admitir que o epíteto de “retornado” daria, só por si, assunto para uma outra crónica.

Ao ler os “posts” que muitos deles vão colocando, continuo a surpreender-me por, passados mais de 45 anos (estando a maioria bem instalada na vida e com novas famílias formadas e constituídas), continuarem a cultivar um saudosismo doentio de quem nunca se recompôs nem conformou com a perda do Império. Tal como a deles, também a minha vinda para Portugal foi dolorosa, tanto mais que aconteceu numa idade em que o edifício da minha vida, já com dois filhos e no início de carreira, lidou mal com as implosões  que reduziram a pó os planos projetados em propriedade horizontal. A falta de formação em engenharia política impediu-me de ver as cargas explosivas que, há vários anos, vinham sendo estrategicamente colocadas para destruir sonhos, solidamente construídos e dados como adquiridos, a fim de que outros protagonistas, por direito próprio, os erguessem no mesmo lugar.

A partir dessa mudança primeira, e porque me habituara a olhar para além de horizontes mentais bem mais abertos, o desejo de mudança instalou-se-me no corpo e espalhou-se por todos os tecidos que os poros foram libertando em gotículas de insatisfação. O ninho recém-criado, feito de ramos da integração que fui recolhendo dos voos de aprendizagem e adaptação a novos códigos, serviram-me de base de partida a que regressaria após cada descoberta de novos espaços de adoção. A eles me entreguei com a mesma força de quem tinha a experiência de saber regatear o preço elevado das novas relações de pertença.

Feito o balanço da minha vida, vi-o arrumado por países, cidades e lugares a que chamei meus e onde, em troca de pedaços de mim urdi, no tear das vivências, lembranças que não se encontram à venda em nenhuma loja de “souvenirs”.

Apesar de ter nascido em Portugal, a saída com pouco mais de um ano de idade arrancou-me a raiz primeira, para me descobrir já tronco no areal do primeiro cais a que aportei. Por isso, também eu, nos primeiros tempos, me senti perdida e sem conhecer o lugar a que tinha regressado. Rapidamente acertei os passos com a História e aprendi a percorrer os caminhos do futuro, liberta das correntes que me aprisionavam a um passado que já não tenho.

As Quatro Estações-portugal-mileniostadium

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