Uma ferida aberta no silêncio

No dia 23 do passado mês de novembro, tinham-se passado exatamente três meses sobre o dia em que outros te transportaram num compasso de romaria do teu último adeus, e passarias, desde então, a ser “pisado pelo chão”, como diria Mia Couto, em mais um eufemismo de que a sua criatividade é tão fértil. Não sei como aconteceu, e continuo a não saber explicar tanta coisa que acontece no mundo de uma inteligência artificial que me ultrapassa. Dizem-nos que é uma função automática do algoritmo programado para um conjunto de instruções bem definidas. Mas terá ele sido instruído sobre a coincidências de datas?
Tu, tal como eu, pouco percebíamos destes algoritmos que comandam as nossas vidas, mas a verdade é que foi precisamente nesse dia que, no meu facebook, apareceu um estranho pedido teu de amizade. O teu rosto, com um sorriso sereno, ocupava o ecrã do meu telemóvel e eu fiquei a contemplar-te naquela surpresa inesperada. Depois, afaguei-te e dei-te um beijo como se tivesses vindo visitar-me. Não era mais uma fotografia ou um vídeo, dos tantos que, intencionalmente, têm sido postos quase diariamente a recordar-te. A lembrar-nos que nunca te vamos esquecer e que continuas a fazer parte das nossas vidas enquanto viveres nas nossas memórias.
As palavras somos nós, o ar que se desprende do nosso sangue,
a respiração do mundo em nós.
Gastão Cruz
Eu insistia em olhar-te, com uma irreprimível saudade, sabendo que já não seria possível ligar-te, nem voltar a ouvir a tua voz para falarmos das muitas trivialidades dos quotidianos que preenchem as nossas vidas. Como da última vez em que te visitei e, apesar do coma em que estavas mergulhado, te ter exigido que te queríamos de volta. Inconscientemente, estaria a valer-me da minha autoridade para te dar uma ordem a que terias de obedecer. E despedi-me acreditando que tal aconteceria, porque tudo no ritmo da tua respiração me dizia que estavas a dialogar comigo e a reagir aos meus apelos. Acreditei ainda mais quando numa das vezes em que te acariciei o rosto, te toquei na sobrancelha esquerda e tu esboçaste uma leve reação. Por mais que os médicos as classifiquem de respostas involuntárias do sistema nervoso, nós não aceitamos as suas explicações sempre que a voz do coração fala mais alto do que a da razão.
Caminhamos para o quarto mês da tua ausência, aquele em que celebrarias o teu 61º aniversário, no próximo domingo, dia 7. E recordo como gostavas particularmente desse dia, de nos veres a celebrar contigo mais uma festa. E a deste ano seria a mais feliz delas todas, porque irias, dias depois, fazer a tua tão prometida viagem a Angola – o teu chão matricial – um sonho acalentado durante tantos anos! Falavas da viagem com um entusiasmo que há muito não te conhecia, com uma indomável vontade de regressar a um passado feito de paisagens, família, amigos, ruas que voltarias a percorrer como se nunca as tivesses deixado – memórias que continuavam presas a ti como uma segunda pele. “Não voltarás” decretou o mandamento que não poupou o teu destino a uma partida sem volta, levando-te para junto dos que se foram antes de ti. Num dos livros que tenho em mãos, li há pouco: “a maior injustiça que se pode fazer aos mortos é tratá-los como se estivessem vivos, não lhes permitir o descanso eterno.”
Apesar de querer que estejas em paz, não posso deixar de te confessar as minhas infindas saudades, uma ferida aberta no silêncio dos meus dias por tanto que nunca te cheguei a dizer. Mas, como poderia adivinhar que o teu destino atropelaria a lei natural da vida, aquela que dita que os mais velhos são os primeiros a partir?
A viver o luto dos dias sem ti, no teu próximo aniversário chorarei silenciosamente todas as palavras que em mim ficaram caladas.
Aida Batista/Ms





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