Uma ferida aberta no silêncio

Aida Batista/MS
O espírito de mais uma quadra natalícia há muito se instalou por todo o lado, nas suas mais variadas vertentes: música, decorações, brilho das luzes, ritmo de vida mais acelerado e até alguma crispação em resultado das vésperas que se aproximam a passos largos. Nenhuma autarquia fica hoje indiferente a estas festividades e tudo faz para as promover e inscrever nos seus programas de rua, de acordo com o orçamento de que cada uma dispõe. Claro que não podemos competir com os mercadinhos de Natal dos países europeus do Norte, mas, timidamente e por mimetismo, estamos a instalá-los por todo o lado na esperança de que um dia venham a ter a mesma visibilidade turística. E como somos sempre muito bons a copiar e a importar práticas alheias para alegria das crianças, não nos faltam pistas de gelo artificial a nascer em vários espaços públicos.
O Natal da minha infância foi sempre vivido num clima quente, mas as memórias dos meus pais e dos meus avós maternos, bem como os postais recebidos dos familiares, sempre me transportaram para cenários de frio, neve, lareiras, fogueiras de rua e gente muito encasacada. Nunca escondi que o Natal é a minha época preferida do ano, tendo sempre sabido viver entre estes dois natais: o do espaço onde cresci e o das memórias que me foram incutidas. Por isso, por mais críticas que oiça ao consumismo, à azáfama descontrolada de loja em loja em busca da última oferta, à música repetida até à exaustão, não há como reprimir a criança que em mim exulta indiferente a todos estes constrangimentos. Se as decorações e a música sempre ocuparam lugar de destaque, a gastronomia, em especial a doçaria, continua a ser uma fatia especial da minha memória afetiva. A cozinha lá de casa, onde a minha mãe era senhora e rainha, ganhava um cheiro especial na época do Natal – a massa frita das filhós, açúcar e canela.
Se os odores e os sabores são as inconfundíveis campainhas que nos transportam ao nosso passado, então elas carimbam o passaporte seguro para o regaço de minha mãe. Para além das filhós e da aletria (usada nas Beiras em vez do arroz doce), outra sobremesa típica daqueles dias eram as rabanadas, feitas com o pão de cacete comprado de véspera. Não sei se conseguem imaginar como era difícil manter toda esta doçaria afastada da tentação das crianças que, a toda a hora, atravessavam a cozinha, na esperança de poderem transgredir e iniciar qualquer prova antes do tempo. Eu, como mais velha, e com a responsabilidade de ajudar minha mãe nestas tarefas, tinha o privilégio de rapar o tacho da aletria, provar a primeira filhó enquanto as salpicava de açúcar ou, ao passar as rabanadas por canela e açúcar, levar à boca as pontas do cacete que, por serem pontiagudos, não ocupavam lugar na travessa para serem servidos à mesa. Hoje, rabanada que se preze exige garfo, faca e colher, em virtude de ser bem regada com uma espessa calda de açúcar. Na nossa casa, a calda nunca fez parte da receita, pelo que as retirávamos da travessa sempre à mão, como acontecia com as filhós, que minha mãe fazia pequenas para renderem mais.
Esta era a doçaria que nunca faltava na mesa da minha infância natalícia. O bolo rei entrou muito mais tarde, por força das pastelarias que começaram a exibi-lo nas montras e que minha mãe passou também a incluir na ementa da consoada. Mas, por mais variada que seja a confeitaria de uma mesa de natal, eu mantenho-me rendida a esta trilogia básica porque é ela que continua a habitar a memória de um tempo sem idade.




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