Aida Batista

Será bonita a festa, pá!

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Confundo o presente de hoje e o presente de outrora, pois ambos são o meu presente.

Paul Mauriac

 

Toronto está em festa, melhor dizendo, os portugueses que vivem em Toronto já sentem e vivem a festa das celebrações dos 70 anos da sua chegada oficial ao Canadá, que se inicia na próxima semana. Sete décadas, em tempo histórico, é muito pouco, mas, ao contrário, sete décadas numa vida, é uma vida! E o balanço que hoje cada um faz das suas vidas, independentemente do número de décadas que viveu e onde viveu é, para a maioria, muito positivo.

Não se é de um lugar apenas porque um mero acaso biológico nos fez inscrever um determinado topónimo na nossa cédula de nascimento. Ao longo da vida, deixamos registos dispersos pelos vários lugares que percorremos e incorporamos em nós marcas de tantos outros por onde passámos, sejam eles um espaço físico ou uma travessia de memórias transmitidas por terceiros. No todo, somos uma súmula do que semeamos e do que colhemos, produto final de uma safra cuja qualidade se mede pelo grau de satisfação, de realização pessoal ou de bem-estar com a vida. Aquilo que hoje se consagrou dizer “ter uma cabeça muito bem resolvida”.

Muitos dos que hoje celebram esta data, apesar de não terem nascido nem vivido em Portugal, sentem a portugalidade como parte do seu código genético, mesmo que numa determinada fase da sua vida tivessem feito um esforço para a negar. É socialmente mal aceite que alguém tenha a coragem de declarar publicamente que teve necessidade de renegar as suas raízes para se poder, depois, reencontrar e reconciliar-se com elas. Na verdade, a vergonha precisa de amadurecer com o tempo até cair de podre da árvore das humilhações. Só assim se renovará em frutos nascidos com uma nova pujança e superioridade.

Esta situação é cada vez mais comum quando se vive na diáspora, e a forte necessidade de integração e afirmação levam a romper com o ferrete do passado. Porém, este exercício de apagar origens tem sempre um prazo muito curto de validade porque, à medida que o tempo avança, sente-se cada vez mais o imperativo de ir em busca do chão que vive na memória de cada um. Nós somos um edifício feito de memórias. Estas, à semelhança das raízes das árvores mais fortes, não conseguem calar a fertilidade do passado nas profundezas da terra. Por isso, tantas vezes emergem à superfície como que a implorar a visibilidade do dia.

Segundo o escritor luso-canadiano Anthony de Sá – a propósito da sua obra “Barnacle Love” -, foi ao colocar a si próprio a pergunta “Quem sou eu?”, que encontrou matéria-prima para escrever. Ele nasceu no Canadá e teve uma educação muito rica em histórias. Cresceu a ouvir os tios e os avós a falarem de um mundo mágico e apaixonou-se pelo mito do lugar e da sensação de pertencer a alguma coisa ou, como ele disse, a duas coisas, a dois lugares.

Um dia, ouvi o poeta açoriano Ivo Machado dizer que “A voz humana é aquilo que primeiro de despede da nossa memória”. A ser assim, Anthony de Sá teve perfeita consciência do apelo dos antepassados que povoaram a sua infância e adolescência, e decidiu dar-lhes voz antes que eles se fossem com o vento, porque – é ainda Ivo Machado quem nos lembra -, “Sem o sinete da origem não há criação literária”.

De facto, todos nós temos as nossas próprias ilhas, e é nelas que construímos e vivemos os nossos mundos interiores, feitos de passado, de presente e de futuro. Fora delas, persegue-nos a eterna sensação de desenraizados que uma bela festa desfaz, sempre que se reforça uma geografia humana que, apesar de tão dispersa no espaço, converge nos afetos.

Passada a euforia da celebração, oxalá possamos dizer como Chico Buarque: “Foi bonita a festa, pá!”

Aida Batista/MS

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