Aida Batista

Ser cronista não foi meu sonho

“O passado é uma costa distante que se afasta e nós estamos todos no mesmo barco” - Julian Barnes

“Ser fadista foi meu sonho” – assim começa a letra de um dos fados mais conhecidos de Frei Hermano da Câmara. Apostaria que quase todos seriam capazes de, a partir do primeiro verso, trautear a música tal como me aconteceu assim que o escrevi.

Ser cronista nunca foi meu sonho”, nem nunca tal atividade alguma vez me tinha passado pela cabeça, até ao dia em que, em Toronto, e por força de uma expressão muito forte de portugalidade pela morte de Amália, dei por mim a escrever o texto com que me iniciei.

Há quem tenha em alta conta a crónica, como género literário, como há quem a desvalorize, considerando-a um género menor. Felizmente, e considerando que muitos reconhecidos escritores têm reunido em livro as suas crónicas, estas estão a ganhar um estatuto que, até há bem pouco tempo, era questionável.

Aconteceu, por exemplo, com a última publicação de Dulce Maria Cardoso, “Autobiografia não Autorizada”, que reúne um conjunto de crónicas publicadas numa revista semanal de grande tiragem. Foi-lhe feita uma entrevista e, salvaguardando a qualidade que me separa da consagrada escritora, identifiquei-me com muitas das suas respostas, ao ponto de mentalmente proferir a frase: “É isto exatamente o que se passa comigo”.

Como ela, também não tive diários, também gosto de escrever na primeira pessoa e sentir-me a personagem da narrativa; falar de situações que veiculam emoções guardadas na  memória, à espera da primeira oportunidade para ganharem vida numa folha de papel. Serão todas verdadeiras? Respondo “sim”, embora lhes introduza aqui e ali pequenos elementos ficcionados, de modo que não possam ser identificados aqueles a quem me refiro, evitando assim ferir suscetibilidades.

Tal como Dulce Cardoso, os pormenores da “minha vidinha” não interessam a ninguém. Apesar disso, exponho-me e falo de mim, da “minha vidinha”, da família, dos amigos, porque, enquanto guardiã de memórias, evoco um tempo e um espaço de que alguns não se recordam. É a eles que vou buscar a matéria-prima que devolvo sob a forma de estórias e episódios que só eu conheço, unindo as pontas soltas das perguntas que um dia serão feitas.

Escancarar as portas das nossas intimidades, despirmo-nos das emoções feitas de angústias, alegrias e muitas dúvidas, expor as nossas fraquezas e deixar que outros as leiam em qualquer parte do mundo (desde que os jornais têm existência on-line) é ir muito para além de um retrato de corpo inteiro; é deixar que também a alma se esparrame em cada frase, em cada palavra e mesmo em cada sílaba, quando os monossílabos ganham a força do silêncio que tanto pode dizer. E o risco é tanto maior quanto sabemos que o que escrevemos nem sempre é lido da mesma forma por todos (e ainda bem). Quantas leituras e interpretações são dadas, nem sempre condizentes com as mensagens que queríamos fazer passar? Quantos juízos de valor mancham a inocência de uma frase? Ou ao contrário! Quantas vezes o que se pretende cáustico, mordaz ou satírico ganha a forma de um elogio?

Independentemente do efeito que a nossa mensagem possa causar, o mais importante é sentir que conseguimos tocar alguns leitores, e sermos reconhecidos pelo que acrescentámos às suas vidas, quando nos dizem: “Eu também já senti isso”, “Também já passei pelo mesmo problema” ou ainda “Vi-me retratado naquilo que escreveu”.

Aqui chegada, sinto que valeu a pena partilhar o meu mundo interior, acabando por dar voz aos que nunca tiveram coragem de o fazer, ou incentivando-os a dar à luz a vida escondida no ventre das suas memórias.

Não direi, como Frei Hermano, que Deus me traçou outro caminho.

Escolhi-o eu – bem mais mundano e oposto ao recato do convento a que se recolheu – continuando a ser cronista.

As Quatro Estações-portugal-mileniostadium

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