Aida BatistaOpinião

Pelo rio de Lobo Antunes

DR.

“A gente não escreve porque tem coisas para dizer, a gente escreve porque quer escrever.” – António Lobo Antunes

Março chega ao fim e, com ele, a celebração de três efemérides importantes no nosso calendário: o Dia da Mulher, o Dia do Pai e o Dia da Poesia. Mas não só de festividades viveu este mês, pois foi também o da perda de uma das vozes mais sonoras da nossa literatura – António Lobo Antunes.

Apesar de não ter privado com o escritor, tive o privilégio de assistir ao lançamento de “Sôbolos Rios Que Vão”.  Há quem considere este título estranho e esquisito, esquecendo-se que este é o nome dado por Camões a uma composição poética intitulada “Redondilhas de Babel e Sião”, cujo primeiro verso é “Sôbolos rios que vão”. Por isso, antes de se começar a ler a obra, importa primeiro ir à procura das redondilhas de Camões para se perceber se existe algum paralelismo entre os dois textos. E ele lá está, quando o poeta nos dá conta dos seus lamentos, num momento em que faz um balanço da sua vida, desapontado com tudo quanto viveu, como se através do espelho das águas do rio rememorasse todas as deceções que sentira. O rio tem uma representação simbólica muito forte na cultura clássica, porque se acreditava que, após a morte, as almas seriam sujeitas a uma travessia e transportadas para a outra margem do rio.

Apesar de toda a narrativa de “Sôbolos Rios” se centrar no período em que Lobo Antunes esteve internado no hospital (últimos dias de março e primeiros de abril de 2007), estou certa de que não pretendeu, com este título, fazer o retrato do seu descontentamento, nem invocar os ritos de passagem da morte. Pelo contrário, no desenrolar da narrativa, o rio a que o autor mais vezes se refere é um rio de vida – o Mondego – nascido na Serra da Estrela, a região de Portugal, por excelência, ligada aos primórdios da afirmação de um povo que foi a matriz da nossa identidade nacional. E Lobo Antunes está ligado por laços familiares à Serra, lugar da infância onde se encontram as marcas mais fortes da sua ancestralidade.

A sombra da morte paira sobre toda a narrativa, mas, na última página, quando Lobo Antunes pede que todos saiam «Exeunt Omnes», é para celebrar o triunfo da vida, invocando a expressão latina, como se esta fosse a língua com que se exorcizam todos os fantasmas. E a morte é um deles que, de forma explícita ou disfarçada em metáforas, está presente em todas as páginas. No período de diálogo com o público, Lobo Antunes afirmou que os seus livros não têm um desfilar de personagens com características físicas definidas. De facto, as duas personagens, Antoninho e Senhor Antunes – coexistindo no nome próprio e no apelido, mas a viverem em tempos diferentes -, dão-nos um registo de várias vozes que se entrecruzam para rememorar instantâneos do passado e do presente, feitos de lembranças: umas vezes felizes, outras, mais consentâneas com um presente ligado à doença.

Lobo Antunes revisita os espaços da sua infância, onde habitam todos aqueles com quem conviveu na idade da inocência. Para o fazer de forma descomprometida, recorre aos delírios e alucinações, como se estivesse a despertar de uma anestesia ou sob o efeito de sedativos e analgésicos. 

“Sôbolos Rios Que Vão” é tecido a partir de imagens que se fundem e confundem entre passado e presente, num confronto que põe frente a frente a dimensão do sofrimento do homem, o Senhor Antunes, e a inocência do menino Antoninho. É este último que continua a enrolar-se nas pernas da mãe para a ouvir cantar, mas duvida que haja andorinhas porque a verba do hospital não dava para pássaros. 

E a verba do hospital continua a não dar para pássaros, já que partiste antes de chegar a primavera.

Aida Batista/MS

Redes Sociais - Comentários

Artigos relacionados

Não perca também
Close
Back to top button

 

O Facebook/Instagram bloqueou os orgão de comunicação social no Canadá.

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER