Aida Batista

Passos gravados na pedra

Ser emigrante não é deixar a terra, é levar a terra consigo.

José Saramago

Daniel Bastos, historiador bem conhecido pela publicação de textos sobre figuras destacadas, instituições ou associações ligadas à nossa diáspora, fez, no passado dia 20 de maio, na Sociedade de Geografia de Lisboa, o lançamento de uma obra que muita falta fazia no panorama da nossa historiografia – “Monumentos ao Emigrante: Uma Homenagem À História da Emigração Portuguesa.” Apesar de ter sido um evento amplamente difundido nos vários órgãos da comunicação social, nunca será demais escrever sobre um tema que tanto nos convoca para um novo olhar sobre a mobilidade social.

Credito: DR

Trata-se de uma recolha de mais de uma centena de registos fotográficos de monumentos espalhados por Portugal Continental, e respetivos arquipélagos da Madeira e dos Açores, que homenageiam a gesta das partidas, captados pela lente do conceituado fotógrafo Luís Carvalhido.

A maioria desta estatuária foi erguida por iniciativa das próprias edilidades, em cujos concelhos o fenómeno migratório mais se fez sentir – “as terras que sentiram na pele os dramas da emigração sabem mais, e não se envergonham de o lembrar”, como refere o Professor Onésimo Almeida no prefácio; outra, resultou da vontade dos próprios imigrantes que se juntaram e, através de quotizações, se organizaram para que o nome do berço que tantos filhos dera ao mundo ficasse perpetuado no imaginário coletivo.

Quando no nosso país, e por toda a nossa diáspora, estamos a viver a maior onda anti-imigração a que já assistimos, é bom que nos centremos nestes monumentos, testemunhos vivos de que já fizemos o mesmo e exatamente pelas mesmíssimas razões: melhores condições de vida, numa aposta desesperada em futuros por cumprir, independentemente do destino escolhido. E não me venham com o argumento das portas escancaradas e da ilegalidade das situações. Nós, repito, nós – portugueses – fizemos exatamente o mesmo e continuamos a fazê-lo. Continuamos a partir com vistos de turistas, prolongando-os para além do tempo legalmente permitido, ludibriando assim a clandestinidade com todas as artimanhas que o “frio e a fome metem a lebre ao caminho”. Conheço casos, não falo de cor. Não são tão numerosos como um passado recente atestou, mas, apesar de o cerco ser muito mais apertado e as medidas de vigilância mais restritivas, eles acontecem. Não quero com isto dizer que se deve pactuar com a ilegalidade, mas apenas recordar que o recurso à mesma também faz parte das nossas práticas, enquanto condição intrínseca de quem não quer viver aprisionado nas amarras que o fado lhes ditou. Por isso, é tanto mais incompreensível quanto aqueles que emigraram sejam hoje, lá como cá, as vozes que mais se destacam no combate à imigração e agora, também, ao reagrupamento familiar. 

Na análise iconográfica dos monumentos, o elemento que mais se destaca é a mala, reduzida, por vezes, a uma simples trouxa. Como muito bem nos diz a Professora Maria Beatriz Rocha Trindade, autora do posfácio: “A mala […] quer seja suportada pela mão do emigrante quer se encontre pousada ao seu lado, torna-se indispensável como objeto de grande intensidade simbólica.” 

Mais dos que os parcos haveres materiais, a mala transportava sonhos: o sonho de fugir da miséria e da fome, o sonho de triunfar, o sonho de ser bem-sucedido e dar uma educação formal aos filhos, o sonho de construir uma casa ou de comprar um carro, sem esquecer o excesso de peso das memórias traduzidas em sabores e odores da terra nunca deixada, porque transportada como uma ferida aberta à espera de cicatrização. 

Como o livro irá ser lançado no próximo sábado (dia 28), às 10h, na Peach Gallery em Toronto, faço um apelo a todos os que da comunidade portuguesa puderem estar presentes, porque essa será a melhor forma de prestar uma homenagem pública aos que tiveram a ousadia de partir. Ou seja, a si próprios.

Aida Batista/MS

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