Palavras Apalavradas
De 20 a 22 do corrente, realizou-se na cidade de Abrantes mais um Festival de Filosofia, iniciativa de louvar nos tempos que atravessamos em que a disciplina de Filosofia vem perdendo terreno nos programas da escolaridade obrigatória. Sendo Abrantes uma pequena cidade do interior de Portugal, cumpre-nos aplaudir esta 9ª edição que faz de Abrantes um centro da reflexão e discussão dos problemas do universo filosófico contemporâneo, que teve como mote “O Poder da Palavra – pensar, agir, transformar…”
Manuel Jorge Valamatos, Presidente da Câmara Municipal, na cerimónia de abertura teve a preocupação de salientar que “Num tempo em que o populismo se apresenta como defensor da razão e explora medos, ressentimentos e ódios, o poder das palavras torna-se ainda mais decisivo”.
Após a magistral conferência inaugural, proferida por José Gil, filósofo homenageado, seguiram-se várias mesas-redondas e oficinas, em que o poder da palavra foi analisado por conceituados académicos e especialistas da palavra de diferentes áreas, sob a perspetiva ética, política e digital, como ferramenta de construção e de transformação, sem esquecer o tema do silêncio e da ausência da palavra.
Entre nós e as palavras, os emparedados e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny, poeta e pintor
Quem, como eu, foi e continua a ser professora, a palavra é o material a que diariamente recorre para cumprir a minha função. Como cronista, é pela palavra escrita que semanalmente chego até vós nesta língua que nos une. E sempre que o jornal sai, leio as palavras dos que me acompanham em cada edição.
Por muito que se defenda que outros seres vivos têm também a sua cultura, a verdade é que apenas a condição humana permite verbalizar a realidade, feita de quotidianos em que as emoções e os sonhos ganham papel de destaque. Foram, por isso, três dias muito intensos, em que os intervenientes, desafiados por um/a provocador/a, puderam dar-nos leituras muito diversificadas do seu pensamento crítico sobre o poder e o valor das palavras, sem as quais, segundo José Gil “a filosofia, a ciência e a técnica, o direito e a justiça, e mesmo a moral, não se poderiam sustentar.”
Os da minha geração sabem bem como se tinha de fazer malabarismo com as palavras, ditas malditas, para se poder dizer o interdito. Hoje, temos a liberdade de poder usar todas as palavras, onde, quando e da maneira que quisermos, ao ponto de muitas delas estarem já gastas pela banalização. Não adianta negar que dias há em que nos sentimos cansados, quando elas se transformam numa verborreia desprovida de conteúdo, significado ou importância, ampliada por “essa verdadeira biblioteca de Babel que é a Internet”, como lhe chamou o físico e ensaísta Carlos Fiolhais. Por causa da agressividade que a palavra ganhou no espaço público, pela roupagem deselegante com que diariamente se veste em certos comentários, pela pobreza lexical com que cobre como se fosse uma mendiga de dicionários, sentimos cada vez mais necessidade do silêncio para nos podermos entregar aos nossos solilóquios interiores. É no silêncio que as aconchegamos, as guardamos só para nós, para com elas estabelecermos os mais íntimos diálogos.
Não é por acaso que a sabedoria popular consagra em aforismos o valor e o peso que a palavra tem nas nossas vidas. “A palavra é de prata, o silêncio é de ouro” é aquele mais enfatiza o valor do silêncio. Outros, ainda, preferem prevenir-nos contra a função perniciosa da palavra, acautelando-nos em relação ao cuidado que com elas devemos ter. Por exemplo: “A pedra e a palavra não se recolhe depois de deitada”, “Palavra fora da boca, é pedra fora da mão” ou “Mais fere a palavra do que a espada” são bem o exemplo de como a palavra pode ter uma força destruidora. Para o evitar, cabe-nos apalavrar palavras responsáveis pela construção de pontes de entendimento.
Aida Batista/MS




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