Aida Batista

O princípio da incerteza

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Quero ser feliz nas ondas do mar.
Quero esquecer tudo, quero descansar.

Manuel Bandeira

 

Os dias que vivemos são de tal modo imprevisíveis que o princípio da incerteza, formulado em 1927 por Heisenberg, faz parte do nosso quotidiano. De um momento para o outro, podemos ser surpreendidos por qualquer imponderável que nos muda a vida. Estamos impedidos de dizer amanhã, porque nunca como agora o amanhã foi tão incerto.

Quando estou algumas horas fora, assim que entro em casa pego no comando para ligar a televisão num canal de notícias. Foi o que fiz no passado sábado (18). Alarmada pela nota de rodapé, comecei a ouvir o que se passava. Um Airbus A330 da companhia aérea espanhola World2Fly, que havia descolado do aeroporto de Lisboa, lançara um pedido de regresso devido a um problema no trem de aterragem. Tratava-se de um voo para Varadero, Cuba, com 300 pessoas a bordo. Impedido de prosseguir viagem, a única solução seria voltar a aterrar no aeroporto de onde saíra. O problema é que um avião não pode aterrar quando tem os depósitos cheios, como era o caso, correndo o risco de se incendiar. Nestas circunstâncias, o avião vê-se obrigado a manter-se no ar, para queimar ou largar combustível até que este atinja os níveis de segurança que permitam uma nova aterragem. Até eu, que sou uma leiga na matéria, conheço estes procedimentos.

“Grosso modo” foi com estas notícias que me confrontei nos vários canais, onde não faltavam comentadores ligados aos vários ramos da aviação. Somos um país pequeno, mas comentadores especialistas em todas as áreas não nos faltam. Enquanto debitavam o seu douto saber, víamos na outra metade do ecrã o avião numa trajetória em círculos, por cima da zona de Mafra, como nos informavam.

A determinada altura, percebe-se que a aeronave se dirige para Norte. De imediato se colocou a questão: “Iria para o aeroporto Sá Carneiro no Porto? Para a base aérea de Monte Real? – perguntava a locutora. Que não sabia, respondia o seu convidado, pois só o controlador aéreo era responsável pelas indicações que dera. Entretanto, as imagens iam alternando entre o céu e a terra; como o alerta fora acionado, a par da trajetória do avião, seguíamos também todo o aparato dos primeiros socorros da equipa de bombeiros, INEM e polícia em direção ao aeroporto.

“Há que estar preparado” – continuava o comentador, entrando em detalhes como quem anuncia um desastre iminente.

As famílias assistiam às notícias e, num misto de angústia e esperança, dirigiam-se para o aeroporto, na expectativa do que iria acontecer. A viagem direta para as sonhadas areias brancas e finas de Cuba, começava com mais de duas horas a sobrevoar os céus de Portugal. E o drama ia-se adensando, porque nada melhor para garantir audiências do que uma catástrofe em direto.

Previa-se a aterragem para as 19 h, mas a dúvida instalou-se assim que o avião iniciou o rumo para Norte. Não tardou a mudar de rota e a dirigir-se em direção ao Sul. Dúvidas tiradas – regressava ao aeroporto Humberto Delgado. Desfeita a dúvida, havia que empatar a conversa. Tentava-se adivinhar o estado de espírito dos passageiros, um palpite aqui outro ali, descrevendo a situação traumática que estariam a viver.

Finalmente, o momento da aterragem. Perfeita! Duas rodas a deslizar numa carícia de asfalto. O alívio total!
Reparada a avaria, é perguntado aos passageiros se querem prosseguir viagem. Surpresa para os que haviam vaticinado o pânico que, afinal, ninguém sentira. Sem qualquer recusa, o avião voltaria a descolar com todos os passageiros a bordo.

Depois de dois anos de pandemia, as praias de Cuba eram suficientemente apelativas para ninguém se sentir incomodado por ter de acrescentar mais umas longas horas de voo àquelas que já andara no ar.
Para grande deceção dos arautos da desgraça, tudo voltava ao normal e a normalidade não vende.

Aida Batista/MS

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