No meu prédio mora o meu país

Foi no passado dia 3 de novembro que, no Sardoal, tomaram posse os órgãos eleitos nas últimas eleições municipais. Na qualidade de deputada municipal, participei na cerimónia e, sentada na primeira fila, não pude deixar de olhar para os pés dos meus colegas que, de pernas descontraidamente cruzadas, exibiam os seus sapatos. Se não estivesse na situação de recém-chegada de uma missão no Namibe (Angola), tenho quase a certeza de que não teria reparado em nada.
Acontece que, depois de uma convivência de quase um mês com formadores/as de Didática da Língua Portuguesa para o ensino primário, em que a maioria dos candidatos eram homens, pude observar o cuidado com que diariamente se apresentavam, tanto no que à roupa dizia respeito como ao calçado. Mas os sapatos destacavam-se e ocupavam o centro das atenções.
Sou uma parte de tudo aquilo que encontrei no meu caminho.
AlfredTennyson
Durante a pausa entre as sessões o café – acompanhado de salgados, doces e fruta – era servido num pátio interior entre as salas de aulas. O chão desse espaço não levantava pó, pois além de não ser de terra batida, estava coberto de gravilha compactada. Apesar disso, assim que regressávamos à sala de aula, a maior preocupação era não entrar com os sapatos empoeirados. Por isso, a maioria trazia um paninho no bolso e puxava o lustro antes de retomarmos os trabalhos. Esta atitude era bem mais recorrente entre os homens, que faziam deste gesto um ritual constante.
Se este comportamento foi bem visível em sala de aula, o mesmo acontecia noutros espaços em que tive oportunidade de observar – exceção para os que usavam sapatilhas – o mesmo cuidado em ter sempre os sapatos escrupulosamente engraxados.
Um dia houve em que, junto ao café onde tomávamos a bica matinal, nos cruzámos com um dos formadores antes de nos dirigirmos para o início das sessões. Quando lhe perguntámos se ia para a formação, a resposta pronta foi: “Sim, vou… Mas, professoras, antes vou engraxar os sapatos.” E dirigiu-se ao engraxador que diariamente ocupava o seu posto estratégico de angariação de clientes. É por essa razão que, numa capital de Província como Moçâmedes, podemos ver engraxadores espalhados por vários pontos da cidade. Porque ter os sapatos sempre impecavelmente a brilhar é ponto de honra para qualquer cidadão angolano, independentemente do tipo de solo que esteja a pisar.
Vivi em Angola, se bem que nunca tivesse estado no Namibe, de onde regressei em 1975, logo após o período da descolonização. Decorridas tantas décadas, confesso que já me havia esquecido de alguns destes detalhes dos quotidianos africanos.
Ao falar do assunto à minha filha, recordei-lhe que, durante a adolescência, ela tinha também essa mesma preocupação. Lembrámo-nos de como insistia em ter as suas latinhas de graxa, uma castanha e outra preta, para ter os sapatos, botas e respetivos canos sempre reluzentes. Hoje, recorremos a outro género produtos que permitem o mesmo brilho, sem que tenhamos de usar a graxa.
A linha das nossas vidas é o produto de tudo quanto vamos incorporando ao longo do tempo, feito da memória das paisagens, rostos, conversas, cheiros, práticas e hábitos com que nos cruzamos. Daí termos ambas concluído que, tendo ela nascido e vivido uma parte da sua infância em África, não poderia ter ficado impermeável ao tecido humano com que foi urdida parte da sua identidade.
A expressão “o diabo está nos pormenores” é frequentemente usada para enfatizar a importância que deve ser dada aos detalhes. Nesse sentido, todos os meus colegas de bancada estariam chumbados se sujeitos a um teste de imagem que obedecesse ao padrão por que se regiam os meus formandos. Já no caso da minha filha, a preocupação com o calçado será, porventura, o seu pulsar africano a vir ao de cima.
Aida Batista/MS




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