My darling dead ones
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. Fechei os olhos e dormi - Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

Aida Batista/MS
Existe um enraizado hábito finlandês de recordar os mortos no Natal. No dia 24 de dezembro, as famílias, como que a convocá-los para a consoada, visitam-nos e acendem velas junto das lápides, transformando os cemitérios em mares de luz que criam uma atmosfera emotiva na escuridão do inverno. Lembrando-me desta tradição, também eu decidi, neste início de um novo ano, em vez de me entregar a propósitos que quase sempre ficam por cumprir, homenagear os meus. Por isso, escolhi chamar a esta crónica “Meus Queridos Mortos”, título de uma obra da escritora luso-canadiana Erica de Vasconcelos. Limito-a, contudo, aos familiares mais próximos.
Começo pela minha irmã Elizete. Não me lembro de alguma vez termos brincado juntas, apesar de havermos partilhado a cama com a nossa mãe, quando partimos para Angola. Guardo apenas uma memória fugaz do dia em que a meteram no berço branco acetinado que lhe serviu de caixão, quando saiu de casa nos ombros de meu pai.
O meu tio Gabriel, irmão mais novo de minha mãe, que era quase da minha idade. Este, sim, foi meu companheiro de brincadeiras, até ao dia em que, a caminho da catequese de preparação para a comunhão solene, um camião, conduzido pelo seu próprio irmão, o levou para o céu. Que forma mais estúpida de ir para o céu, mas era a versão que ouvia por entre o choro convulsivo de minha mãe e minha avó. Tenho tão presente as nossas corridas de bicicleta quando regressávamos a casa do meu avô, por trás do cemitério. Desatávamos a pedalar para podermos passar a alta velocidade junto ao portão lateral. Era a zona onde enterravam aqueles que não tinham tido direito a cerimónia religiosa. “Por onde vagueavam as almas penadas!” – murmuravam. E nós, amedrontados, acelerávamos mais e mais, não fosse alguma delas perseguir-nos naquela reta final. Chegávamos sempre a casa com o coração a saltar do peito, mas envoltos na certeza de que ali estávamos seguros.
Mais tarde, e já em Portugal, minha avó materna que manteve sempre aberta a ferida de ter deixado Benguela. Aceitei esta perda quase como natural, por estar a natureza a cumprir o seu papel – levar os mais velhos primeiro.
Até que chegou a vez da minha mãe e, então, a dor foi tão profunda que me rasgou de cima a baixo, dividindo-me em duas: o antes e o depois da morte dela. Partiu aos 61 anos, sem que nunca a tivesse visto doente. Mãe de doze filhos, nem após os partos quis o aconchego da cama.
Muitos anos depois, meu pai, a quem um AVC em 2000 deixou completamente dependente de nós. Lutou quanto pôde durante anos, até ao dia em que sucumbiu à batalha.
Seguiu-se meu marido, após uma Páscoa em que entrou numa curva descendente acentuada da doença que o minava. Estava um domingo quente e luminoso e, impossibilitado já de andar, desafiou os jovens (meus netos e sobrinha) a serem eles a levá-lo a dar uma volta. O Rafael, todo orgulhoso da sua carta recente, fez o papel de motorista. Ausentaram-se por mais de uma hora e foi ele quem o orientou, por montes e vales, pelos caminhos da sua despedida. Depois desse dia, começou a sentir-te mal, cada dia com menos forças e dificuldade em respirar, até chegar um dia de julho em que lhe deu o sono como a uma criança. Fechou os olhos e dormiu para sempre.
Seguiram-se dois irmãos, um dos quais o ano passado, com muitos sonhos por cumprir. Mais duas perdas dolorosas, mais dois lugares vazios na cartografia dos meus afetos.
Neste calendário de ausências, “enquanto um de nós estiver vivo”, como diria o poeta José Luís Peixoto, continuaremos sempre todos juntos à mesa.




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