Aida Batista

Memórias de Água de Pau

 

Esta obra é, mais do que um registo histórico,  um verdadeiro repositório da alma pauense.

João Francisco Pacheco, in Prefácio

Hoje estou em Água de Pau, concelho da Lagoa (Açores) para fazer a apresentação da obra de Roberto Medeiros “Antes que a memória se apague – crónicas de Água de Pau, vol. II.” Antes de entrar no miolo da obra, destaco a belíssima capa – uma pintura da artista Berta Malhinha –, que diz bem da religiosidade intensa vivida pelos pauenses, tanto na sua terra, como nas diferentes diásporas por que se dividem. 

O título continua a ser o mesmo, porque igual é o propósito de Roberto Medeiros – registar a memória de Água de Pau, sua terra, que ele considera ser mais do que um lugar no mapa. “É um sentimento, uma memória coletiva, um legado que atravessa gerações.” Fazer a pedagogia da memória mais não é do que utilizar a memória coletiva e individual para construir conhecimento e promover a reflexão sobre o passado e o presente. Roberto Medeiros não pretende substituir-se aos historiadores, mas convidar-nos a sentir a sua desmesurada ligação à terra – “sincera, profunda e inabalável” como a descreve João Francisco Pacheco, amigo de infância e autor do Prefácio.

Este amor a Água de Pau fá-lo registar histórias que desde criança se habituou a ouvir a partir da singularidade de vozes individuas, num verdadeiro laboratório intergeracional (a mercearia do pai), e que a sua atenta curiosidade foi guardando ao longo do tempo. É a partir dessas “vozes envelhecidas”, como lhes chama, aliadas a um acervo fotográfico do tempo do seu pai, que vai retratando quotidianos que atravessam o tempo e o espaço de Água de Pau, desde o seu povoamento até à atualidade.

Essas histórias estão ligadas à revisitação de vidas das famílias e à sua ligação sociopolítica a um tempo e a um lugar, às relações desiguais e interdependentes no mundo do trabalho, à relação da sociedade civil com associações, organizações e entidades públicas, à influência da religiosidade na vida da comunidade, à valorização de um certo hibridismo cultural, a alguns registos autobiográficos, enquanto compreensão do seu papel e da sua família nas suas opções individuais, mas, acima de tudo, ao reconhecimento e à valorização de gente anónima que ganha voz nestas narrativas. E isso tem a ver com todo o conhecimento que Roberto tem de um espaço, que se habituou a olhar com olhos de ver, da geografia humana que o povoa e das transformações que foi sofrendo ao longo dos anos. Qualquer pauense embarca com o maior agrado nesta viagem aos lugares da sua infância, numa coexistência permanente entre passado e presente.

Mas a geografia de qualquer lugar só faz sentido quando marcada pelas pessoas que o habitam ou, em tempos, o habitaram. Por isso, Roberto Medeiros tem a preocupação de os humanizar, recordando várias figuras – umas mais ilustres, outras, gente simples – sem esquecer as que deixaram as suas vidas inscritas nas páginas da diáspora açor-americana.

Por isso, não faltam crónicas dedicadas aos que, apesar da distância e das ausências, ficaram para sempre ligados ao seu lugar de origem, pois, como nos diz Daniel de Sá, “A pior maneira de ficar na ilha é sair dela”. 

O filósofo francês Paul Ricoeur numa Conferência denominada “Le travail de mémoire et la poétique” refere-se à problemática da memória através do conceito de atestação do passado, o que nos remete para a questão da memória enquanto forma de conhecimento da temporalidade subjetiva do eu, segundo a lógica de recolha e de reapresentação dos acontecimentos e factos passados, fundamentada na dialética presença-ausência.

O acentuado amor à terra natal, faz com que Roberto Medeiros siga esta linha, juntando páginas e páginas de histórias que há muito tempo habitavam a sua cartografia mental, para que a memória de Água de Pau nunca se apague.

Aida Batista/MS

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