Aida BatistaOpinião

Lembrar AuschWitz

Crédito: DR

O verdadeiro problema de Auschwitz
é que Auschwitz aconteceu.
Imre Kertész (sobrevivente)

Hoje, 27 de janeiro, dia em que escrevo e envio a minha crónica, celebra-se o “Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto”, implementado através de uma resolução da Nações Unidas, a 1 de novembro de 2005. A memória, que tantas vezes é considerada curta, ao pretender dignificar as vítimas, alerta-nos para as consequências dos movimentos de ódio e segregação contrários à defesa dos direitos humanos. Por isso, e porque diariamente testemunhamos, a coberto de uma certa impunidade, infundadas agressões a cidadãos de todo o mundo, recordo a minha visita a Auschwitz, quando se celebraram os 70 anos da libertação.

Na minha adolescência, impressionou-me a obra de Leon Uris, Milla 18, um romance baseado em factos reais, ocorridos durante a ocupação da Polónia, e as atrocidades que visavam eliminar um povo e outras minorias. Desde então, acalentara o desejo de um dia poder pisar o chão do país onde havia perecido uma grande parte dos que tinham sido vítimas da loucura de um homem. Tive oportunidade de dar satisfação a esta vontade, quando me desloquei à cidade de Cracóvia, e daí, a Auschvitz (Oswiecim) e Birkenau. Numa visita guiada pude sentir a proximidade do quanto é capaz a monstruosidade humana quando se solta a besta que há em cada um de nós.

As imagens falavam por si, e o grupo deslocava-se de forma compassada a lembrar outros passos, sempre em silêncio, como se o horror nos esmagasse e nos impedisse de fazer perguntas. No entanto, uma legenda, por entre as várias existentes, instalou-se na minha ignorância – Kanadá! Este era o nome dado aos armazéns onde se guardavam os melhores pertences dos recém-chegados. E essa foi a única pergunta com que ousei interromper a dolorosa e pausada caminhada. Porquê Kanadá?

Foi-nos, então, explicado que, antes da II Guerra eclodir, e perante os sinais que indiciavam já os conflitos que se avizinhavam, havia um desejo transversal a muitos europeus – o de emigrar para fora da Europa. Ora, nessa época, o país que aos olhos de todos aparecia como o melhor destino era precisamente o Canadá. O Canadá estava, portanto, associado a uma imagem de abundância e riqueza fácil.

Aos deportados para os campos de extermínio, foi-lhes sempre ocultado o seu verdadeiro destino. Por isso, e perante a permissão de poderem levar vinte e cinco quilos de objetos pessoais, eles escolhiam o que de melhor tinham para os acompanhar na nova vida que lhes era prometida. À saída dos vagões, após intermináveis horas ou dias de viagem, outros prisioneiros os esperavam para, de imediato e segundo ordens superiores, confiscar os pertences dos que seguiam para as câmaras de gás. Os diferentes haveres, que depois seriam enviados para a Alemanha, eram levados para armazéns que passariam a conter o que de melhor existia dentro do campo: as memórias de vidas arbitrariamente interrompidas. E foi assim que, pela sua carga simbólica, os armazéns ganharam a dimensão de um país, de um paraíso distante e imaginário feito de objetos impregnados de quotidianos que jamais voltariam a ser vividos.

Após esta explicação, concluí que, por muito que se saiba sobre um determinado período da História, há pequenos detalhes que nos escapam e o acaso se encarrega de descobrir, preenchendo assim as lacunas do nosso sempre incompleto saber.

Decorridos onze anos sobre esta visita, o Canadá continua a estar na lista dos destinos da emigração. Entre os que o procuram, existem portugueses que, tal como no passado, não se cansam de desafiar a legalidade para tentarem a qualquer custo espreitar a nesga entreaberta da porta do armazém do bem-estar. Pena é que, estes sim, tenham memória curta, e continuem a galgar a onda de quem alimenta discursos de ódio, em vez de promover a tolerância e a paz de que tanto precisamos.

Lembrar é a única forma de evitar a barbárie!

Aida Batista/MS

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