Aida BatistaOpinião

In memoriam

Crédito: DR

Celebrou-se mais um Dia do Pai, e eu continuo a recordar-te na certeza de que acompanhas os meus dias com o mesmo orgulho que sentias enquanto acompanhavas o meu percurso. Trabalhava em Toronto, quando recebi a notícia que te tinha dado uma trombose e te encontravas muito mal no hospital. Consegui uma passagem para esse mesmo dia. Tinha uma noite pela frente e não consegui pregar olho no avião. Em criança, tinha aprendido todas as orações que tu me ensinaste, mas não sabia a qual delas recorrer… Ave Maria? Salve Rainha? Deveria ir diretamente a Nossa Senhora sem que me dirigisse primeiro ao Criador?

Afinal não é Ele quem tem o direito de vida ou de morte sobre cada um de nós? Optei pelo Padre Nosso.

Quedei-me naquela parte “seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu”. E se a vontade d’Ele fosse levar-te? Não, não poderia ser. Não poderias partir sem me dizer nada. Sempre nos ensinaste que quando nos vamos embora nos devemos sempre despedir. Partires assim, contrariava todas as regras de boas maneiras incutidas. Pensei no Ato de Contrição. Comecei a desfiá-lo. Mas, contrição, porquê? Teria que sentir arrependimento por estar longe? Tu foste sempre o primeiro a apoiar-me na minha carreira, construída de pequenas vitórias arduamente conquistadas. Quando saí a primeira vez para ir dar aulas na Finlândia, alguém comentou contigo que não achava bem que eu tivesse deixado marido e filhos e ido trabalhar para fora. Tu defendeste-me num misto de amor e orgulho para comigo. Entendeste a minha decisão, porque cedo conjugaras também o verbo partir, quando rumaste a outras paragens na ânsia de inventar um futuro melhor para mim e os meus irmãos ainda por nascer.

No avião, quase todos os passageiros dormiam, enquanto eu conversava contigo, recordando pedaços de vida partilhados, primeiro em terras de África e, depois, já em Portugal. Recordei Páscoas e bebi a amargura até ao fim, não sem antes pedir: Pai, se for possível, afasta de mim este cálice!

Fui direita ao hospital e tu reconheceste-me: “minha filha”! Enfeixámo-nos num abraço de lágrimas. Ao fim de uma semana, tive de regressar e só voltei a ver-te no verão, mas já não te encontrei. Tu tinhas deixado de ser o homem forte para passares a mais uma criança de quem tínhamos de cuidar. Mergulharas num mundo de tréguas em que não reconhecias os teus. Os médicos, junto de quem buscávamos ajuda, preparavam-nos para a tua demência, cada vez mais acentuada, diziam eles. E eu acreditei, enquanto outros não tinham perdido a esperança.

Pouco a pouco, ela foi ressurgindo em pequenos lampejos de luz do fundo de um túnel. Começaste a falar de coisas um pouco difusas na tua memória. Como uma meada que enredava, enredava, sem que encontrássemos a ponta do fio, mas que lentamente se começava a organizar no labirinto de um passado até então desorganizado.

E tudo batia certo! E eu pus-me a pensar onde tinhas ido buscar as forças que te levaram a trocar as voltas aos médicos, que tanto estudaram, mas nada sabiam sobre o mistério da vontade de viver. Provaste, afinal, que há desígnios insondáveis de Deus e escreveste, sem querer, mais um capítulo nos tratados de medicina.

Nos momentos da mais completa lucidez, perguntavas-me como estava, e eu respondia-te que estava tudo bem. “Ainda bem, minha filha, que Nossa Senhora te abençoe” e pedias-me que rezasse por ti. Ainda oiço a tua voz: “Rezar é falar com Deus”. É isso que continuo a fazer, depois de mais tarde nos teres deixado. Porque continuas a ser o que sempre foste: o esteio forte na defesa dos valores que me transmitiste e que fizeram de mim aquilo que hoje sou. Sem genealogias de berço, mantendo o sinete do teu nome lacrado na mais valiosa herança que deixaste, a única que verdadeiramente enobrece.

Aida Batista/MS

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