Aida Batista

Grávidos de esperas

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No princípio era o verbo, dizem as Escrituras, um verbo sem flexão, porque era a palavra. E a palavra nasceu para nomear. E nomeou.

Com nome de vírus andou de em boca a má nova da perigosidade dos sintomas e dos efeitos do contágio. De repente, o medo fez-se carne passando a habitar-nos. Todos – salvo os que tinham de se manter alerta – se entregaram a um recolhimento voluntário e consentido, passando a palavra a familiares, amigos e conhecidos.

Feitos coelhos nas nossas tocas, treinamos aprendizagens de um mundo novo – sem toques, sem beijos nem abraços, à revelia da nossa condição de seres humanos e gregários. E passamos a viver em ecrãs de computadores e telemóveis, de onde acenávamos e trocávamos carícias virtuais a que faltava o cheiro do corpo. Janelas e varandas dos prédios ganharam luz, e voz de gente solidária, que cantava e batia palmas aos anjos que guardavam almas de noite e de dia. Não foi preciso muito para nos habituarmos a novas rotinas, a novos “verbos” (como planaltos, picos e curvas, que era preciso achatar) fora do nosso contexto lexical.

E começamos avidamente a consumir notícias, e a ver imagens da razia que acontecia lá fora, mas tão perto que partilhávamos as mesmas fronteiras da morte. À hora aprazada, falava-se de nós, incluídos nas percentagens europeias, depois mundiais: os primeiros casos, os primeiros internamentos, as primeiras mortes. Mas íamos resistindo às estatíticas e, pela primeira vez, orgulhosos de estarmos na cauda, quando comparados não só com os países vizinhos, como com os do resto do mundo.

Leia também: • A pandemia e a crise social

De ego insuflado, ouvimos o nosso exemplo ser noticiado. E falou-se de milagre, do milagre português, o que nos deu muito jeito para continuar a manter a nossa autoestima no patamar da vaidade. E acreditar que somos bons, algumas vezes os melhores, porque além da saudade temos ainda outra palavra difícil de traduzir – desenrascanço.

Entretanto, chegou o verão, e tudo quanto o verão representa num país do Sul – sol, praia, esplanadas, convívio, mesmo se espartilhados por regras restritivas. E fomos baixando a guarda, mais a máscara e o distanciamento social. Não era ainda o regresso à normalidade, mas a “movida” começou a sentir-se nas cidades e no campo, este ano sujeito a muitas descobertas por parte dos que anos a fio desdenharam do mundo rural.

Terminou agosto. Entramos em setembro, os recreios das escolas e os “campus” universitários encheram-se novamente de alunos, saudosos dos colegas, dos amigos, das aulas presenciais e de todas as transgressões próprias da idade.

Os ciclos das estações não confinaram, e a natureza deu lugar ao outono que foi vestindo as árvores de novas tonalidades, para depois as despir dos castanhos, amarelos e vermelhos ao cair da folha. Começou a arrefecer, soaram os alarmes da segunda vaga, que todos prenuncivam ser pior do que a primeira. E a curva, que tão dificilmente fora achatada, voltou a subir. Os números de novos casos, os internamentos, os óbitos não pararam de crescer nos gráficos que diariamente nos mostravam.

A economia não aguenta um novo confinamento, dizem-nos. Mas são precisas

mais medidas, novas restrições. Não tão duras, mas que sirvam para evitar o colapso do sistema de saúde. E outra palavra entra no quotidiano – bolha. Viver na bolha, não sair da sua bolha.

A economia estagna, trava a fundo em alguns setores. A fome escondida percorre caminhos de clandestinidade, em pedidos de socorro silenciados pela vergonha. Ainda ninguém conhece o amanhã, e os profetas do futuro falam a várias vozes, dissonantes, sem certezas, apenas para encher os vazios da esperança.

Passados nove meses, é assim que estamos – grávidos de esperas.

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