Aida Batista

Eu tenho uma carta escrita

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Ao Rei Herodes

Majestade,

As cartas e os postais de Natal são cada vez mais raros nos tempos que correm. Há cada vez menos pessoas, nas quais também me incluo, a entregarem-se a esta tarefa na quadra natalícia. Talvez, por isso, me tenha hoje sentido impelida a escrever-te esta carta. Porquê a ti? Para te confessar um sentimento que durante anos atormentou a minha infância.

Nunca soubeste, Herodes, o quanto foste responsável pelos incontáveis pesadelos que enxamearam os sonhos da minha inocência. Educada numa família militantemente católica, para o meu pai a Bíblia era o livro de leitura obrigatória com que depois doutrinava os nossos dias. Ele conhecia todos os episódios do Velho e do Antigo Testamento, permitindo-se muitas vezes citar o número de certos versículos, sempre que precisava de fundamentar com probidade as suas narrativas.

Conhecidas as circunstâncias da Natividade de Jesus – o ponto alto das nossas celebrações representadas pelo Presépio erguido ao pormenor -, era-nos contado o que se passara a seguir – a Matança dos Inocentes, descrita no Evangelho de Mateus 2:16-18. Surgia, então, apresentada com o maior realismo, a tua figura macabra –  Rei da Judeia – inconformado com o nascimento de um menino que te poderia roubar o lugar. Perturbado com a ideia de perderes o reino, planeaste mandar matar todos as crianças até aos dois anos de idade, na esperança de que o Deus Menino se encontrasse entre elas. Eras Rei, deverias ter sido informado de tudo, mas um anjo ludibriou-te os planos. Visitou José em sonhos e preveniu-o do que iria acontecer. E foi assim que ele teve tempo de levar o Menino e Sua Mãe para o Egito, a coberto da clandestinidade, para poder escapar à ira dos teus algozes.

Sempre ouvi esta narrativa horrorizada e pensava para comigo como seria bom poder ter a capacidade de mudar o curso dos acontecimentos, convencendo-te de que haveria outros caminhos que não a condenação dos que nada tinham a ver com a tua obsessão. Admito também que sempre considerei José um homem egoísta, que se preocupou em cuidar apenas da sua vidinha, pondo a sua família a salvo. Mas a tua crueldade e o teu sangue frio, ao ditares o decreto final, foi sempre o que mais me perturbou. Como fora possível tamanha insensibilidade, sem que, por momentos, pensasses na dor de tantas mães a quem os filhos foram arrancados do colo sem dó nem piedade?

Senti durante muito tempo uma enorme repulsa por ti, pelo menos até a minha inocência não ter sido ainda contaminada pela existência de tantos outros Herodes espalhados pelas mesmas e outras geografias. São homens que, tal como como tu, cultivam um narcisismo exacerbado, dotados que são de egos muito maiores do que os reinos que governam. Têm outros nomes, assumem outros rostos, outras idades, habitam outros espaços, mas, tal como tu, semeiam ódios e colhem os destroços espalhados pelos campos de terra queimada. 

Comungando da mesma ambição que os eternize no poder, ordenam novos massacres, já não de espada em punho, mas pondo a tecnologia ao seu serviço para destruírem gerações de crianças a quem foram interrompidos todos os sonhos de um dia poderem vir a ser gente. 

Contrariamente ao que aconteceu contigo que, além dos evangelistas, poucos mais registaram o teu ato hediondo, hoje tudo se passa à nossa frente e os inocentes desfilam perante a indiferença do olhar do mundo que chega a ser conivente com os seus horrores. 

Em nome do Menino que se fez Homem e pregou o amor ao próximo, como caminho da salvação, surgem novos Herodes a cada passo a apontar os caminhos da raiva e da intolerância, impedindo a reconciliação entre os homens de boa vontade, como deveria ser o verdadeiro espírito da época que atravessamos.

Aida Batista/MS

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