Aida Batista

Entre a maré e a onda

"Ser português é viver de olhos ancorados ao alto mar, ansiar pela maré de partir ou pela onda do regresso." - Paulo Costa

Ano após ano, Portugal celebra-se como país – cujas fronteiras são as mais antigas da Europa -, mas principalmente como povo, derramado pelos mais variados cais do mundo (a que chamamos Comunidades), cantado na língua do seu poeta maior – Camões. Por toda esta geografia humana, esteja ela onde estiver, se organizam eventos a que a pandemia retirou a pompa com que habitualmente eram festejados, para se remeterem a comemorações mais contidas, mas nem por isso menos sentidas.

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Créditos: DR.

Para quem, como eu, já passou o Dia de Portugal num desses “Little Portugal” transplantado, que de “Little” só tem o nome, sabe bem o quão importante é lembrar o espaço berço averbado na nossa certidão de nascimento. Os festejos, a cabo das comissões que para o efeito se constituem, apesar de importantes, não são o que mais nos toca. Funcionam, acima de tudo, como um acelerador de memórias, porque celebrar a Pátria é viajar até ao mais fundo de nós e deixarmo-nos invadir por tudo quanto nos recorda a Portugalidade. E esta passa por minudências a que poucos darão importância, mas nos definem e remetem para as raízes que deixámos e fizeram de nós árvores de um tronco só, ou enxertadas de ramos de outras famílias que soubemos incorporar. Se o tronco deixou que seivas alheias por ele corressem, as raízes, essas, ficaram para sempre presas a um chão iniciático, onde o húmus se manteve intacto, contrariando a decomposição a que as leis da natureza o sujeitam.

Este permanece secreto e, de cada vez que nele remexemos – porque composto do nosso código identitário -, saltam as cores, os sabores, os sons, os cheiros, os lugares, as paisagens povoadas de imagens e de seres familiares, que na nossa mente desfilam num rememorar de instantâneos, como janelas voltadas para a alma de quem os viveu.

É o multicolorido das flores campestres com que se teceram guirlandas para casamentos e batizados; os sabores dos pratos tradicionais cozinhados nos potes de ferro fundido com as trempes assentes no calor forte do brasido do chão; os sons dos leitos das ribeiras ou das cascastas engrossadas pelas invernias mais chuvosas; o coaxar das rãs nas águas paradas dos charcos ou o uivar do lobo em busca de presa fácil; o cheiro a pão acabado de sair do forno ou o da canela com que se desenhavam motivos no arroz doce, segundo as festividades; o rechinar da gordura da sardinha antes de se deitar em cama de pão de milho ou da febra acabada de cortar após o ritual da matança; as pequenas leiras por onde se repartiam as madrugadas de regos de água, à vez e à hora a que tinham direito; as procissões a desenharem carreiros em direção ao orago do santo protetor, vestido de notas dos pagadores de promessas de regresso à terra; as cantigas ao desafio das desfolhadas que denunciavam letras e olhares libidinosos a desejar o beijo a que o milho rei dava direito; as figuras castiças da aldeia mais conhecidas pela alcunha do que pelo nome de batismo, a esconder intimidades estranhas aos demais; as ruelas e becos que testemunharam alegrias, mas também angústias, medos e muitas inecisões.

No fim, sentir que maré e onda se baralham no rendilhado do tempo e do espaço, debatendo-se na cor sépia da espuma amarelecida pelo tempo. E, ao confundirmos o que está a montante e a jusante, damos razão ao poeta que diz “ser a foz o sítio onde o rio perde para mar”.

Seja qual for o olhar com que fitamos o passado, é pela memória que regressamos ao nosso chão e à velha casa onde as chaves continuam escondidas debaixo do tapete.

Milenio Stadium - aidaBatista

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