Dizer não às gaiolas douradas

Na edição da passada semana, O Milénio trazia imagens comprovativas de como um sonho ganha forma e se vai gradualmente erguendo aos olhos de quantos o idealizaram. Refiro-me ao Magellan Centre retratado em fotografias de fevereiro a outubro deste ano, como quem acompanha o crescimento de um filho. Primeiro um chão vazio, ainda coberto das neves da época, mas onde se vislumbravam já os caboucos onde iriam assentar os alicerces da obra.
Depois, os pilares a ganharem altura, a malha de ferro por onde escorrerá o betão da firmeza que, por sua vez, irá dar lugar às placas dos diferentes pisos. E assim de fevereiro a outubro, podemos, à distância, como é o meu caso, ir acompanhando mês após mês, a materialização de uma obra há muito pensada e que alguns duvidavam de que um dia poderia ser uma realidade.
“O homem sonha, a obra nasce”, diz-nos Fernando Pessoa. Mas há sempre quem pense que a poesia não passa de um conjunto de palavras bonitas para preencher o ócio de quem vive no mundo das utopias. Mas o que se está a passar no número 640 da Lansdowne Ave. prova que quem se alimenta de sonhos acaba por ver saciada a sua fome das boas intenções para tornar o mundo melhor. Sei que foi uma luta árdua, que muitos obstáculos se atravessaram no caminho e tiveram de ser vencidos com um grande jogo de cintura. Mas sei também que o mundo dos vencedores é feito por quem insiste em conjugar o verbo “persistir” ao invés de, no primeiro contratempo, optar por “desistir”. É no intervalo destes dois verbos que se trava a luta do sucesso e continua a ser a persistência a dar os resultados que, mais tarde ou mais cedo, aparecem. E eles, aí estão!
Por enquanto, ferro, betão, pilares, placas, paredes, espaços vazios que um dia hão de acolher vidas, muitas vidas, que serão a memória do que foi uma comunidade que nunca se cansou de sonhar, porque também foi pelo sonho que veio.
Pelo Sonho é que vamos, comovidos e mudos.
Sebastião da Gama, poeta
Por coincidência, a edição do Expresso da última sexta-feira confrontou-nos com uma reportagem que retrata a realidade dos nossos velhos. Sim, dos nossos velhos, porque não quero usar o eufemismo “idosos” para mascarar a realidade que nenhuma alteração lexical pode mudar. É a nossa realidade e é triste! Mas não é só nossa, é também a de outros países europeus, como se o mal dos outros nos irmanasse numa desgraça coletiva. Um bocadinho aquela ideia “Não somos só nós” para ajudar a desculpabilizar a responsabilidade de cada um de nós.
Quando continuamos a ler o artigo, há dados que chocam, que incomodam, mas que deviam unir-nos na tomada de uma posição conjunta. E cito: “Este novo inquérito nacional às estruturas residenciais para pessoas idosas revela um país onde mais de metade dos residentes em lares apresentam sinais de declínio cognitivo compatíveis com demência.” Se esta conclusão é já por si arrasadora, o que se segue deveria fazer soar todas as campainhas da nossa consciência: “Apenas 15% recebem visitas frequentes dos filhos.” Ou seja, a par do envelhecimento, a solidão passa a ser outra fatalidade – uma solidão forjada entre as paredes de ausências, dia após dia, sem um toque, sem uma voz familiar, sem o aconchego do sorriso de um rosto amigo. Condenados ao silêncio, vivem mudos, mergulhados em quotidianos sem referências.
Ao olhar para as fotografias do Magellan Centre desejamos todos que, num futuro próximo, não venham a reproduzir quotidianos de gaiolas douradas, contrariando o sonho de tantos que por ele esperaram. Chegada a hora, oxalá nos sintamos “comovidos e mudos” perante a grandeza da obra, mas possamos erguer a voz para a podermos exaltar, pois ainda é “pelo sonho que vamos”, como nos ensinou Sebastião da Gama.
Aida Batista/MS




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