DADO COMO DESAPARECIDO

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.
Margarida Ferra
As estações de correio tendem a desaparecer e vão fechando por falta de matéria-prima que as alimentem. A carta, substituída pelo correio eletrónico, não deixou de existir, apenas passou a viver noutra dimensão – o espaço virtual. Os pequenos bilhetinhos, que deixávamos espalhados para dar recados aos que partilhavam o mesmo espaço connosco, foram substituídos por SMS. Não deixámos, portanto, de comunicar pela palavra escrita. Pelo contrário, e contrariando a voz popular, penso que cada vez escrevemos mais, dando vazão à quantidade de mensagens que diariamente enchem as plataformas digitais que usamos. Podemos é debater o formato, o conteúdo e até mesmo o impacto emocional que esta nova forma de comunicar possa ter em cada um de nós.
Se passarmos da palavra escrita à falada, também não podemos comparar os dias em que vivemos aos que nos antecederam. Até há bem pouco tempo, o custo de uma chamada, mesmo as locais, representavam um grande rombo em qualquer orçamento familiar. Éramos, por isso, muito contidos nas conversas, reduzidas que ficavam a “telegramas falados.” Agora, sem limitação de tempo e com recurso à imagem, podemos ir acompanhando, à distância e em tempo real, a vida dos que estão ausentes. Não é o mesmo que a presença física, já o sabemos. Nada substitui o brilho do olhar, o toque das mãos, o beijo saudoso, o calor de um abraço e o odor corporal que funciona como uma campainha da memória olfativa. No entanto, e pese embora essa falta, lembremo-nos dos tempos em que as cartas, de tão espaçadas pela distância, chegavam com notícias já ultrapassadas por acontecimentos mais recentes.
Isto vem a propósito do que aqui quero hoje partilhar convosco. Tenho o hábito de enviar um postal para os meus dois netos, e também para mim, sempre que visito algum outro país. Foi por isso que, no início do ano, num programa das manhãs dedicado às relações entre avós e netos, a SIC me convidou para estar presente com o meu neto mais novo, já que o mais velho vive fora de Portugal. Levámos alguns desses postais, guardados ao longos dos anos, para falarmos sobre este ritual. Disse-lhes que, por vezes, havia um ou outro que não chegava, pelo que, em jeito de comprovativo, passara a fotografar o momento em que o metia na caixa do correio. Uma dessas fotografias registava precisamente um dos que nunca havia chegado.
No mês passado, ao abrir a caixa do correio, fui surpreendida por um postal. A primeira reação foi ler o texto, e alguma coisa não batia bem. Tinha estado na semana anterior em Palma de Maiorca, de onde também enviara um postal, mas este falava-me do nascer e pôr do sol no deserto. Olhei, então, para a imagem – oásis histórico de Gafsa, na Tunísia. Voltei ao texto e lá estava data – 25/06/25! Mais de um ano depois chegava o postal de que eu havia falado no programa. Logo depois, a mensagem do meu neto a manifestar o mesmo espanto, com a fotografia do postal deles.
Foi este episódio que me fez voltar às cartas, em que tantas vezes, por ausência prolongada de notícias, as pessoas eram já dadas como desaparecidas, ou até mesmo mortas, pelos seus familiares. Quantos dramas se esconderam por trás desses silêncios? Quantas vozes se calaram pela vergonha da falta de sucesso? Outras, porque tinham vivido vidas paralelas que importava ocultar, e ainda casos de quem vivia na clandestinidade do analfabetismo que não queria dar a conhecer.
Este postal fez-me recordar muitas dessas histórias de e/imigração. Tal como os protagonistas das histórias, sem que eu possa adivinhar os caminhos percorridos durante mais de um ano, ganhou vida depois de já o ter dado por desaparecido. O mesmo será dizer que, afinal, vale sempre a pena acreditar.
Aida Batista/MS




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