Aida Batista

Códigos para a amizade

 

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De facto, as cartas são uma incrível forma de escrita
tridimensional: dão a ver (ou criam a ilusão de dar a ver)
em direto a existência tal como ela é.

Tolentino Mendonça

 

 

As amizades podem nascer em qualquer momento das nossas vidas. Há as da infância que, na maioria dos casos, só perduram quando se mantém a proximidade ditada pela geografia dos percursos de vida. Há as outras, que vão surgindo ao longo da nossa atividade profissional ou, fora desta, nos mais variados contextos, muitos deles imprevisíveis. Foi o que aconteceu quando, há pouco mais de três anos, te conheci em ambiente de festa das palavras, das imagens, dos livros e dos convívios entre as mais variadas gentes. Fomos apresentadas por um amigo comum, e, de forma espontânea, a conversa fluiu ao ponto de, ao fim de alguns minutos, me estares a oferecer o teu livro, um ensaio fotográfico de 72 imagens e 35 missivas. Missiva é uma palavra que te é muito cara, e gostas de a utilizar com uma certa frequência.

O trabalho que deras à estampa era o resultado da tua experiência em Moçambique, passando África a ser o tema da nossa conversa. Prometi, por isso, oferecer-te o meu “Chão da Renúncia”, por onde poderias caminhar folheando um conjunto de crónicas que relatam o meu regresso à cidade que me viu crescer. Para o efeito, e depois de descobrirmos que em Lisboa somos residentes da mesma freguesia, marcámos um encontro num local próximo de ambas.

Eu havia já lido o teu livro e, nos comentários que fazia, usava algumas das expressões típicas de Moçambique. Tu, após a leitura do meu, fizeste uma apreciação que muito me sensibilizou: “Às imagens e palavras que geraram esta nossa amizade, junto percursos e memórias, misturo gostos, gestos, a quase simetria de territórios que, separadamente no tempo e no espaço, em intensidades e com frutos distintos (que têm orientado e sido, afinal, as nossas vidas), poderão ter o condão de a reforçar e perpetuar.” Em jeito de brinde, terminavas com “Ao futuro desta amizade.”

A amizade, conforme pressagiaste, ganhou futuro e temo-la mantido por via de telefonemas, de esporádicos encontros, de curtas visitas e das missivas que vamos trocando. Das vezes em que nos encontrámos, passámos a utilizar uma expressão saída de uma das minhas crónicas. Nela relato um episódio ocorrido durante a guerra civil em Angola, quando havia o recolher obrigatório e as bichas, para se conseguirem os bens de primeira necessidade, faziam parte do tecido da cidade.

Durante esse período, nasceu uma nova ocupação, “o profissional da bicha”, pago para ocupar o lugar de terceiros. Quem não tinha dinheiro, não o podia fazer. Nestas circunstâncias, a imaginação sem limites faz com que se crie toda uma logística de desenrascanço que as situações exigem. Uma delas consistia em levantarem-se durante a noite e, muito sorrateiramente para não serem apanhados, marcarem o lugar com uma pedra frente aos diversos estabelecimentos – talhos, padarias, mercearias -, de acordo com o boato que se espalhava a anunciar a chegada de novos mantimentos. Por causa desta crónica, passámos a usar um código para os nossos encontros – “colocar uma pedra em…” (nome do local).

Razões de natureza profissional obrigam-te a estar fora do país. Eu, pela proximidade das duas missões de voluntariado na Guiné, também estive ausente. Ou seja, nas vindas a Portugal, andámos desencontradas e não conseguimos colocar uma pedra em lado nenhum. Por isso, da última vez que trocámos missivas, disse-te que temos de arranjar maneira de o fazer, sob pena de a pedra se transformar num pedregulho.
Assim que carreguei na tecla “enviar”, pensei: a amizade é também isto – espaços ligados por um código, que só pode ser interpretado por quem o conhecer.

Aida Batista/MS

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