Aida Batista

As vozes dos estendais

DR.

Gosto de ver estendais de roupa à espera do calor que a enxugue. O calor que não se faz sentir apenas sobre a textura de cada uma é feita, mas também sobre as vidas de quem antes as vestiu. Ao olhar para um estendal, posso adivinhar o percurso de cada uma delas: a faixa etária, passando pela ocupação e gostos, até chegar ao estatuto social. Não vejo apenas roupa lavada, mas biografias suspensas de uma corda torcida de memórias.

No meu estendal, há um tempo vazio de lembranças, mas, assim que começo a ter consciência de mim, vejo penduradas as batas brancas do Colégio de Nossa Senhora da Conceição para onde fui com seis anos. Do lado esquerdo do peitilho, o monograma bordado a azul a sinalizar a elite que o frequentava. Cedo percebi o conceito de “não” pertença, pois, meu pai apenas me matriculara por achar que a sua primogénita teria de ter uma educação religiosa. 

Fui depois para o liceu fazer a alínea a, (Românicas), onde as turmas já eram mistas, mas a obrigatoriedade da bata continuava a manter-se – sem monograma e a liberdade de se poder usar modelos personalizados. Terminado o liceu, e como filha mais velha de uma numerosa prole, fui dar aulas para o colégio onde estudara. No estendal, manteve-se a bata branca, que deixara de ter pregas para se apresentar abotoada de cima a baixo e com linhas direitas, a cobrir a roupa interior igualmente branca. 

Ninguém tinha ainda máquinas de lavar, pelo que o tanque de pedra só ganhava outra variedade de peças à segunda-feira, porque o fim de semana permitia um guarda-roupa mais variado. Além da roupa interior, exposta em qualquer dia da semana, lá estavam as calças à boca de sino, os vestidos florais, as blusas de colarinhos pontiagudos, os tops curtinhos e franzidos a deixarem ver uma curta faixa de pele à volta da cintura, os fatos de banho, as toalhas de praia e, no cacimbo, camisolas e casacos de malha leves que o clima não exigia grandes agasalhos. Às mulheres não era ainda permitido usar calças e, quando fui dar aulas para o Ciclo Preparatório, estas ainda só podiam ser utilizadas por baixo de uma bata. A bata a eternizar-se no meu estendal como símbolo de um tempo em que o estado mandava no vestuário das mulheres.

Pendurei na corda do meu estendal
o meu lamento, a dor, o desassossego.
Veio a chuva molhou-me, senti-me nua.  

Isabel Morais Ribeiro

Em 1967 casei e o estendal do meu novo estado civil passou a exibir lado a lado a conjugalidade da cama, da mesa e dos trapinhos de cada um. Em janeiro de 1968, tudo mudou e uma nova corda passou a encher-se diariamente de fraldas de pano (ainda não existiam as descartáveis) a anunciar a minha primeira maternidade. Em julho do ano seguinte, o homem chega à Lua, mas a lua cheia da minha gravidez deu lugar ao minguante do meu corpo quando segurei nos meus braços uma outra vida. O estendal, esse, continuou num quarto crescente de fraldas.

Em 1975, com uma etiqueta estampada na alma – retornada –, vim montar estendais em quintais da minha ancestralidade. Habituados a roupas leves, sentimos, de repente, o peso de outras texturas e hábitos: lã, bombazina, flanela, cachecóis, gorros e luvas. Acusando a passagem do tempo, o meu estendal passou a exibir a roupa de dois jovens adolescentes prestes a decidir os seus próprios caminhos.

O ninho vazio lançou-me para outros voos e, em 1989, atirou-me para Helsínquia, uma cidade sem estendais, sem vidas que me permitissem estudar vizinhanças, porque a rodopiar em tambores de máquinas que não as deixavam ver o sol. 

Concluí, assim, que acabar com os estendais é o mesmo que retirar da cidade toda a sinalética que nos dá pistas para chegarmos ao tecido humano de uma cidade.

Aida Batista/MS

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